Censura na Biblioteca

jovem com piercing (Diogo Rosa)

Numa biblioteca, a censura pode ser exercida das mais variadas formas: censurando o próprio livro retirando-o do acervo corrente e fazendo ele “dormir” por tempo indeterminado; impedindo que certas classes frequentem a biblioteca e usufruam de seus serviços. E nisso incluem classe social, determinadas tribos e até mesmo a forma de se vestirem.
Recordo-me de um episódio ocorrido com um aluno do segundo ano do ensino médio. Já estava quase no final do recreio quando ele entrou na biblioteca aflito para pegar um livro. Assim que terminei de atender uma aluna, perguntei qual livro queria. Imediatamente ele respondeu que precisava do livro didático de Física para estudar para a prova. Ao me deslocar para pegar o livro, minha chefa se aproximou e disse que ele não poderia entrar na biblioteca usando uma touca. Apressadamente, o jovem tirou a touca de sua cabeça e pediu que fizesse o empréstimo rápido, pois o sinal para a próxima aula já ia disparar. Mais uma vez minha chefa interviu e disse ao rapaz que ele se retirasse da biblioteca, pois era inconcebível que ele frequentasse a biblioteca com aquele cabelo comprido e ainda por cima, usando pearcing na orelha.
– Pelo amor de Deus minha senhora! Está querendo dizer que não vou poder levar o livro só por conta de meu cabelo e de meu piercing! Preciso desse livro pra estudar, entende? Vou fazer prova e preciso estudar!
– Sinto muito meu rapaz, mas não vai levar o livro. Não sei como o colégio permite que alunos entrem assim para estudar. Aqui na biblioteca não permito isso!
– Que isso minha senhora! Vê se sai da Idade Média! Sou aluno dessa escola, meus pais pagam e não pagam pouco para eu estudar e tenho todo o direito de pegar livros aqui. Tendo o cabelo comprido ou não. Usando piercing ou não!
Exasperada com a conduta do aluno que a questionava, ela botou-o para fora e me deu ordens expressas de não emprestar mais livros a ele.
Essa atitude radical me deixou inconformada e revoltada. O jovem fora escorraçado da biblioteca injustamente. No horário da saída ele retornou e tentou entrar na biblioteca. No entanto, a bibliotecária estava atenta e não permitiu sua entrada. Em seu horário de almoço, antes de sair recomendou:
– Estou saindo para almoçar. E conhecendo a conduta dos alunos tenho certeza que aquele jovem está rondando a biblioteca e vai tentar entrar novamente para pegar o livro. Veja bem, EU não quero que faça empréstimo a esse jovem até segunda ordem. Entendeu? Não quero! Esse jovem vai ter que aprender e ver com quem está lidando.
– Sim senhora. Pode deixar.
Não deu outra. Bastaram apenas uns dois minutos após sua saída, e ele surgiu, na porta da biblioteca olhando todo o ambiente em busca dela. Não sabia se ria ou se chorava. A situação era por demais bizarra. O seu desespero era tanto que eu não conseguia dar bronca muito menos colocá-lo para fora da biblioteca.
– Veja bem Carlos, vou emprestar o livro à você, mas, por favor, estou colocando meu emprego em risco.

– Tia obrigada! Nossa! Não entendo porque ela está com tanta bronca. Pôxa! Se nem o diretor do colégio me brecou na porta da escola e nenhum professor me chamou a atenção por conta disso, por que ela tem que fazer isso comigo?
– Procura entender Carlos. Ela é de outra geração. Outros conceitos, outra forma de pensar. Eu particularmente também não concordo com isso. Aliás, acho isso tudo um grande absurdo, mas, fazer o que né? Ela é a chefa e eu a subordinada. Ela manda, eu obedeço. Veja bem Carlos, vou fazer o empréstimo sem anotar nada. Vou confiar em você e em sua palavra de que vai me devolver o livro na data correta. Mas, preste atenção: só poderá devolver em minhas mãos e nesse mesmo horário que é o horário em que ela almoça. Estamos combinados? Posso confiar em você?
– Putz! É claro que pode tia! Está sendo bem legal comigo! Nunca vou me esquecer dessa sua ajuda. Pode crer que vou fazer direitinho e não vou te comprometer de jeito nenhum! E como prova disso, vou estudar bastante e tirar nota 10 em homenagem a você.
– Não Carlos. Estude bastante e tire essa nota máxima por você mesmo. Está aqui para isso. Invista em você garoto. E tirando nota máxima pode apostar que vou ficar muito feliz. Agora vá rápido e só volte conforme combinamos. Boa prova!
– Valeu tia! – E pegando o livro e colocando em sua mochila, me tascou um beijo no rosto e saiu feito um corisco.
Por alguns dias fiquei apreensiva com a devolução do livro afinal, sabia que mediante a postura e conduta de minha chefe eu estava muito errada e mereceria até mesmo uma demissão. No entanto, em meu íntimo, tinha plena certeza de estar agindo corretamente e corrigindo uma grande injustiça além de combater um ato de descriminação.
Resumo dessa ópera: Carlos devolveu o livro intacto, na data estabelecida, no horário combinado e feliz veio me contar que tinha tirado nota máxima e que devia tudo a mim que havia confiado nele. Esse jovem terminou o ensino médio, prestou vestibular, passou na USP e fez o curso de cinema além de também ter passado em Arquitetura no MacKenzie. Completou as duas faculdades e alguns anos mais tarde, reapareceu aqui na biblioteca e para surpresa minha, tornou-se um homem lindo, maduro, culto. Um profissional de renome internacional e, juntos, demos boas risadas desse episódio que marcou para nós dois.
Ah! Antes que me esqueça, ele continua com seus belos cabelos longo e com seus piercings distribuídos agora em várias partes de seu corpo. Além de algumas tatuagens.
E mais uma vez tive a certeza de estar no lugar certo, na profissão certa.

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participa das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Colabora no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Roseli!!
    Bela história.
    Bela conduta!
    Bela escrita …

  2. Marcia Miller

    Lindo! Adorei!

    Xô censura, preconceito… Todos devem ter direitos iguais, aliás somos iguais perante Deus, infelizmente as pessoas é que são difíceis.

    Abraços,

    Márcia Müller

  3. E a velha senhora deve estar agora ou curtindo sua dentadura em um copo bem sujo e verde de mofo ou se revirando no túmulo de raiva porque não conseguiu tirar a espontaneidade de um aluno brilhante. Bem feito véia de biróte….

  4. É isso aí, Roseli, abaixo a ditadura!

    • Oi Gláuber!
      É como sempre falo: o profissional da biblioteca tem o papel não só de cuidar do acervo e administrá-lo. Numa escola, seu papel primordial é ser também um educador. E isso a gente faz no dia a dia com a garotada. Valeu amigo!

  5. Roseli querida, adorei o conto verrdade.

    O mundo tá cheio de pessoas com estes preconceitos e outros mais.

    Aqui na Alemanha um carteiro trabalha assim com vários piercings e tatuagens. certo dia num acidente que teve na rua onde ele entrega as cartas os dois carros que se colidiram um deles comecou a pegar fogo. Ele salvou retirando dos carros 6 pessoas em meio às chamas.

    Eu mesmo ao vê-lo na TV jamais imaginaria que ele tinha uma profissao e que trabalhasse nela. No comeco da reportagem pensei que ele foi a pessoa salva. Mas nao, ele salvou às pessoas.

    Parabéns mais uma vez pela bela escrita.

    Um grande abraco

  6. Georgia! É sempre um prazer te receber por aqui. tem razão. A pior coisa é o preconceito. principalmente se ele vier velado como por aqui. Obrigada pela visita e comentário.

  7. Eu quase fui expulsa de uma biblioteca pública em Bangu por causa do meu short. Vamos aos esclarecimentos pra quem não é do Rio de Janeiro: Bangu é um bairro do subúrbio, de gente pobre. Aí vocês vão imaginar um cenário de adolescentes (e véias) funkeiras seminuas pela rua. Acrescentando que a temperatura média do verão em Bangu é de 40ºC à sombra. Já vi marcar 45ºC às 18h. O cenário é esse mesmo, mas meu short cobria toda a polpa da minha poupança, como cabe a uma moça educada em escola dominical. Até as tias do meu marido gostam do meu short. Mas a bibliotecária, que só viu quando eu estava saindo (o balcão é bem perto da entrada), disse que da próxima vez ela não me atenderia. Já tem uns 3 anos isso e até hoje eu me revolto. Eu leio muito, mas só vou á biblioteca quando estou de férias (o horário de funcionamento exclui os trabalhadores). De férias, eu ando pelo meu bairro de short e chinelo. As meninas que se vestem com menos panos e que não são íntimas da biblioteca (a grande maioria) serão todas desconvidadas a frequentá-la.

    • Oi Aline,
      Em primeiro lugar gostaria de agradecer sua vinda a esse blog e comentário que sempre será bem vindo. Infelizmente, na minha área profissional, contamos com pessoas que trazem o ranço de preconceitos e acabam por contaminar no dia a dia o real papel de uma biblioteca. E isso sempre acarreta a má fama de uma bibliotecária. Graças a Deus, sou de uma geração que pensa diferente. Sou a favor sempre do diálogo, esclarecimento e educação. Nosso papel entre tantos outros é a de um educador informacional.Tenho fé de que um dia, ainda teremos bibliotecas espalhadas por todo canto tendo sempre uma equipe qualificada e preparada para o atendimento do público.Obrigada mais uma vez e volte sempre.

  8. Aline Viana

    Adorei a crônica, Roseli! Nossa, que chefa, hein? Sempre imaginei que caridade, livro e comida não se negava pra ninguém. Enfim, que bom que graças a Deus sempre existe alguém para impedir que o autoritarismo, burro quase que por definição, atravanque a vida alheia.

  9. Edilene Venancio Pedroso

    Òtima crônica,infelizmente ainda retrata a realidade de nosso país quando o assunto é educação e cultura.

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