Memórias de pensão

Estudo, Tereza Costa Rêgo, acrílico sobre madeira, 2,2 x 1,6 m

Estudo, Tereza Costa Rêgo, acrílico sobre madeira

Dona Etelvina falava pelos cotovelos com o técnico da tevê a cabo quando ela entrou e perguntou alguma coisa sobre a hora do brunch. A velha respondeu que ali não tinha brunch, era café da manhã mesmo e emendou uma conversa na outra. Mas ela não parecia interessada no assunto anterior. Saiu de cena sem a menor cerimônia e sentou-se na área externa da casa. Acendeu um cigarro e cruzou as pernas – ou teria sido o contrário? Parecia esperar alguém. Eu estava hospedado no pensionato de Dona Etelvina havia quase um ano e era a primeira vez que a via por ali. Devia ter uns trinta, no máximo. Usava um vestido justo que deixava à mostra o corpo bem feito. Noventa sessenta noventa. Nunca fui bom em medidas de mulher, mas era o tipo de comentário que tia Rosaura faria se a visse naquele vestido – tia Rosaura era costureira conhecida na região de Araçatuba. Fixei os olhos nas coxas e fui subindo. Ela jogava os cabelos de um jeito que pareciam mover-se em câmera lenta. Naquela época ainda não sabia o quanto poderia ser perigosa uma mulher que jogava os cabelos daquele jeito. Eu observava da janela, fingindo olhar o movimento da rua. O ângulo não favorecia que eu visse seu rosto, mas teve um momento em que ela virou bem a cabeça e soltou uma longa baforada em minha direção. Tinha olhos negros  pontiagudos, o que anotei em meu bloco de pretenso escritor. Ela sabia que estava sendo observada, cruzava e descruzava as pernas. Acho que foi um sorriso meio de canto de boca que a denunciou. Um riso mais indecifrável que o da Monalisa. Eu estava enlouquecido por aquela presença, quase tomando coragem para uma missão suicida quando o homem do carro preto parou em frente à pensão e indicou a porta do passageiro. Ela entrou, não sem antes olhar novamente em direção à janela. Ensaiei o meu melhor olhar, meio de lado, enquanto ela ia saindo.

Houve uma confusão no meio da madrugada. Levantei às pressas assustado com os gritos de Dona Etelvina. No meio do corredor ela empunhava uma vassoura, uma versão quixotesca da Praça da República. Bradava que seu estabelecimento era de familia e outras coisas como sem-vergonhisse ali não! Fui me inteirar no café da manhã. Dona Etelvina havia descoberto que a nova hóspede praticava a mais antiga das profissões bem ali, debaixo do seu nariz enrugado. E eu que passara a noite tentando lançar algumas rimas para a mulher dos olhos negros, ao menos tive uma certeza: Não seria eu o poeta da mulher inatingível. Seria sim o poeta à procura da puta. Diana, Afrodite, Stephanie ou Brigite? Qual seria o nome de guerra da minha musa?
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  1. Dê! Adorei o texto e sua descrição de cenas! Bjs

  2. Aline Viana

    Adorei, Denise! 😀

  3. meninas, Dona Etelvina mandou agradecer. 😉

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