Ô vida chata!

Foto: Carol Debiasi

Dizem que nasci num dia chuvoso. Acho que era quinta-feira. A chuva foi tão forte, que alguns pontos da cidade ficaram inundados. A rua em que nasci era uma das principais, por muitos anos foi sinônimo da boêmia e das extravagantes festas oferecidas pelas famílias mais ricas. Nos dias atuais, a circulação intensa de veículos e o ritmo frenético das pessoas, como formigas que se preparam para o inverno, tomam conta de todo o bairro e inibe as comemorações.

Fico na rua o dia todo. Sempre ouço dizerem que a cidade está cheia de outros iguais a mim. Dizem que estão em esquinas, meio de ruas, semáforos, avenidas, travessas, entre outros. Nas ruas mais escuras é que causamos mais medo e raiva. Aí de nós se surgirmos de repente onde não existíamos. Se isso acontece, nos xingam e, ainda, envolvem os políticos, pessoas da prefeitura, entre outros que deviam dar cabo da gente. Estamos sempre incomodando as pessoas que seguem suas vidas a fim de custear sua sobrevivência.

Não sei se fico triste ou feliz. Afinal, não devo ser coisa boa, pois, as pessoas pouco se importam comigo. Elas dizem que influencio no orçamento da municipalidade, que posso até contribuir para a oscilação de mercados e balanças espalhadas pelo mundo.

Eu e os outros iguais a mim, causamos preocupação. Dizem que alguns tiram seu dia para numerar, contabilizar e dimensionar quantos so­mos. Dizem que alguns grupos são culpados pela nossa existência. Outros dão até a impressão de ficarem felizes pelo fato de estarmos por aí. Depois de cada contagem, cada totalização, fazem planos, traçam metas, criam campanhas e até viramos número para discursos políticos. Acho isso tudo loucura. Ora, pra quê? Se estamos por aí apenas cumprindo nosso papel social e funcional dentro da cadeia de desenvolvimento das grandes cida­des.

Para você ter uma ideia da nossa importância, certo dia um jornal veio ver um amigo, aqui perto. Há muito tempo ele estava na mesma rua. Já fizeram até festa de aniversário para ele. Não sei bem o que aconte­ceu com ele, pouco tempo depois só fiquei sabendo que selaram o seu des­tino. Ouvi alguns dizerem que: “finalmente haviam enchido sua boca”. Deve ter sido bom para ele.

Não sei se terei o mesmo destino que ele. Fico aqui no meu canto, na mesma rua que nasci. Procuro ficar quieto. Mas, como todos que­rem crescer, também penso em ser grande. Tenho os meus sonhos. Acredito que estou perto de conseguir algum progresso.

Ouvi dizer que em poucos dias mudarei de classificação e pas­sarei a ser chamado de valeta. Se tudo der certo, nas próximas chuvas pode­rei virar uma cratera. O grande sonho é chegar a ser uma enorme voçoroca. Invencível. Cortando toda a cidade, fazendo com que centenas de cabeças pensantes consumam seu dia para tentarem acabar comigo. Será que quero muito?

Por enquanto, sigo minha vidinha de buraco de rua. Meu prazer diário é ouvir alguns xingos. Minhas glórias nesse estágio têm estourar uns pneus ou consumir algumas molas dos carros que resolvem me enfrentar. Ô vida chata!

Celso Oliveira – nasceu em 20 de maio de 1971, em Jandaia do Sul, Paraná. Decidiu ser jornalista por gostar de ouvir as notícias contadas pelo avô, as quais ele conseguia pelo rádio de pilha. Já enveredou pelo esporte, onde jogou vôleibol amador por alguns anos e chegou a ser árbitro e técnico. Começou a escrever poesias quando adolescente, mas sempre amante da literatura resolveu cruzar outros caminhos das letras. Atualmente, se divirte escrevendo relatos do cotidiano e lendo, sobretudo, biografias e folhetos que lhe entregam na rua.

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  1. Bela estreia Celso! Fui lendo e tentando adivinhar quem era esse personagem. Maravilha!

  2. Aline Viana

    Muito bom! Também fiquei o texto todo tentando adivinhar quem seria. Ótima sacada, Celso! Que novos textos tão inspirados quanto esse venham por aí 😉

  3. José Carlos

    Vida besta, sô.
    Inanimada e revoltada. Boa abordagem.

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