O Pelourinho é Logo Ali

Foto Gov/Ba

Foto Gov/Ba

É só subir aquela ladeira e entrar à direita…
Domingo de carnaval. Não queria estar aqui, na Baixa dos Sapateiros. Os turistas passam pela porta, mas não entram neste bar, apenas os camaradas sem dinheiro pra cerveja cara. Lota com a turma da pipoca.

Escuto as batidas do Olodum me chamando. Repenico “já, já” batucando no balcão. Nasci pra ser artista. Se jogar um timbau faço uma timbalada. Mas preciso ficar. Dar uma força pro meu pai.

Terminei com Abigail na sexta. No sábado, após o trabalho, ia com os meus irmãos pra farra, só voltava na quarta. Sumiram antes. Todo carnaval é assim, sobra pra mim. Agora não tenho coragem. Não posso abandonar o velho. Nunca me deixou faltar. Quando vou pra escola me dá dinheiro pra coca-cola ou guaraná. No sábado traz abará, recheado de camarão e vatapá.

– Já lavou o banheiro, Ricardo?

– Tô indo, painho.

– Não demore, rapaz. Ainda precisa encher o freezer.

Mas o que é isso? Cagaram com uma submetralhadora, atiraram pra tudo que é lado. Vou dar descarga pra aliviar. Vaaai. Deeeesce. Vixe! Entupiram a privada. Deve ter sido aquele casal gay de madrugada. Últimos clientes. Queriam ficar. Deram um dinheiro a mais e deu no que deu.

– Painho, a privada tá entupida.

– Então desentupa.

– Como? Não sei fazer isso.

– Ôxente! Se entupiu enfia o cabo do rodo no vaso.

Antes de retornar ao banheiro um infeliz teve a coragem de entrar primeiro. Os tambores não abafaram os balangandãs. Da praça Castro Alves escutava o desarranjo do homem. Como se fosse possível piorar! Deve ter comido acarajé estragado. E, pela quantidade, uma dúzia.

– Desculpe, painho, eu até tentei, mas não dá pra limpar. Tô meio enjoado. Querendo desmaiar.

– Deixa de ser molenga, rapaz. Limpa logo essa privada que tá uma desgraça.

– Então vou comprar um desinfetante mais forte. Pra desintegrar. Depois dou descarga e passa.

– Mas venha rápido. Você não botou as cervejas pra gelar. Daqui a pouco o pessoal vai chegar.

Ô meu Senhor, me livre dessa. Se possível afasta de mim toda aquela merda. Sei que tenho sorte. Obrigado! Poderia ser pior. Baiano da gema mija na rua. Mas seria melhor se também cagasse.

Deaço, Gutinho, Dal, Nei, Dinho. Encontro a turma na esquina. Ninguém viu Abigail. Minha neguinha sumiu. Será que ela seguiu algum trio?

– Daqui a pouco vamos pra ilha.

– Vocês vão pra Itaparica?!

– O carnaval lá é massa, véio.

– Vem com a gente, Ricardo.

– Vai ser só curtição.

– Menina bonita de montão.

– Eu queria, mas meus irmãos se mandaram. Sobrou só eu pra ajudar o coroa no bar.

Essas batidas nativas me excitam. Não, não posso abandonar o velho. Todo dia me traz cocada da Maria Baiana. Humm, que negona! Sei fazer esse som. Se jogar um tambor, encaixo no talabar e arrebento o couro. Tenho que encher o freezer. Itaparica. Sol, praia, menina bonita, aquele banheiro, que fedor! Não, não posso deixar o velho. Quando criança toda noite me trazia caramelo… Quanta merda!

Sabe de uma coisa? Nem Michael Jackson resistiu aos tambores coloridos. Percussão que percute. Neguinho ficou branco. Segura aí, meu rei, que eu também vou, vou correr pro Pelô.

Carne rasgada. Por essas ladeiras muitos pretos subiram acorrentados. Embaixo de cada paralelepípedo o sangue ainda jorra. Mas a chibata não corta a alegria de ser da raça. Meu Salvador! Sem ritos e mitos. Canto nagô, banto, em iorubá, não importa, vou agora por suas ruas festejar.

Atrás do trio elétrico só não vai quem limpa bosta. Sou camaleão, coruja, crocodilo eu sou. Cadê Armandinho, Dodô e Osmar? Filhos de Gandhy no circuito Barra-Ondina. Itapuã-Amaralina. Toco agogô como ninguém. Se jogar baqueta e surdo
faço um bloco inteiro.

O Curuzu na liberdade do Ilê Aiyê. Cara de África. A japonesinha quer. Sinto cheiro de amor e beijo na boca. Chicleteiro sem abadá, pego paulista, sulista, suíça. Faço bem a fita. Mas volto pra minha Abigail na quinta.

Levo pancada de polícia. Não fui eu, senhor, que afanei o turista. Essa carteira encontrei na pista. Não vão mesmo acreditar. Vacilou. Vou me mandar. “Pega ladrão!” Na multidão sou mais um negão.

Cidade alta, cidade baixa. O elevador é a minha nave. Estaciono no Farol da Barra. Me banho no Abaeté. Fico pra lá e pra lá. Dormir não dá. Como acarajé com abará. De manhã tomo mugunzá e descanso olhando o mar.

No Mercado Modelo tiro foto com gringo sem medo. Sambo de roda. Caio de banda, balançando a buzanfa. “One dolar, ok?” “Muchas gracias.” “Decadence avec elegance.” Jogo capoeira sem saber, só pra inglês filmar e outro troco arrancar. Se tivesse berimbau tirava mais.

– Aê, aê, aê, aê, ei, ei, ei, oô, oô, oô, oô, o.

O problema no carnaval não são as vogais, é que mais cedo ou… sempre mais cedo chega a quarta-feira em cinzas. Por que não emendam até domingo? Isso é coisa de português.

– A benção, meu pai.

– Deus abençoe, meu filho. Foi comprar desinfetante em São Paulo?

– Passei mal com o fedor. Lembra que eu comentei que não estava bem? Caí na esquina e me levaram pro hospital. Precisei tomar soro. Olha no meu braço o esparadrapo.

– Quem te levou pro hospital?

– Nem sei. Apaguei. Quando acordei estava internado.

– Ficou três dias tomando soro?

– Agora estou bem. Só um pouco de sono. Não dormi com a zoada dos trios.

– É, a guitarra baiana não deixa ninguém dormir. Mas me diga uma coisa: você tá bem mesmo?

– Superbem, painho. O soro me sarou!

– Então vá logo limpar o banheiro.

– O senhor desentupiu a privada?

– Não. Ela ficou esperando você se curar. Três dias de merda pra limpar.

– Ô painho, não precisa pegar esse pedaço de pau, não.

– Ôxe, essa madeira que você bem conhece é pra, sabe como é, caso precise de um incentivo. De uma ajuda, viu?!

– Pode deixar. O cabo do rodo vai funcionar.

Eu, hein!, como pode? Acabou o carnaval. Baiano não sabe fazer festa. Em Olinda hoje ainda tem folia com o Bacalhau do Batata e eu limpando caca.

– Paiiinho?

– Diiiga!

– Cadê os meninos?

– Sei lá daquelas pestes. Deve tá tudo internado, tomando soro.

Vixe! Isso são pedaços do intestino de alguém ou sarapatel? Xinxim de galinha. Caldo de sururu. Moqueca com angu? Oi leva eu, leva, Eva… Olodum tá pop, Olodum tá reggae, Olodum tá rock, o Olodum pirou de vez… Eita, a rapaziada tá exagerando no dendê.

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Aline Viana

    Adorei!!!
    Esse dilema entre a obrigação e o prazer sempre me pega de jeito, rsrsrs Ainda bem que não tenho bar pra cuidar 😛

  2. Bom demais esse texto Gláuber! Bom demais mesmo!

  3. Conto muito bom!! Sabor tão brasileiro…

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