Kitschig

O destino da humanidade é morrer amando, trepando e mandando rosa vermelha pra destravar paixão ou curar briga, minha filha, o que eu faço não tem prazo de validade, não, graças a Deus que amar é feito gripe, dá mais que uma vez, deixa o nariz escorrendo, é sempre choro quando ele acaba.

Nem lembro como começou, sabe, acho que foi na escola, a professora mandando fazer versinho, coração rima com paixão, amor com dor, carinho e beijinho, e vai lá, tomei gosto, fiz comunhão, crisma, entrei em grupo de jovens, lá descobri a música, descobri Cirlene, descobri a paixão, ela não queria nada comigo, eu era feio, um bicho envergonhado, e amor não-correspondido é carro desgovernado descendo ladeira levando tudo o que encontra no caminho, não é, vai muro, parede, mãe e dois filhos dormindo, cachorro latindo, sofá velho.

Bom, daí em diante foi sempre paixão que não acontece em minha vida, amor platônico, dá pra dizer que sou PhD nisso, sabe, no meu caso as letras deviam ser tudo maiúscula, PHD, porque meu conhecimento no assunto ganha fermento todo dia, cresce cada vez mais. Sempre o sujeito imaginando o beijo que não acaba, a mãozinha que sonha em ganhar vida no cinema, homenagear primeiro com punheta, depois com carro de som e outdoor, essa coisas que o povo fala que é vergonhoso, mas se pega fazendo quando a alma gêmea verdadeira, a univitelina, surge faiscando no metrô, na internet, corridinha pela praia, ou trazida pelos amigos em comum, não é?

De rima em rima fui musicando os sentimentos, primeiro a Edislaine, nessa época eu já animava festinha da turma na escola, ela troçava da minha paixão e agarrava o Tonhão na minha frente, o olho me chamava de pateta, a boca invadia ele, o olho me buscava de novo, sabe, jogava na minha cara um você-me-qué-sei-disso-mas-não-vai-tê é, isso doía, e os versinhos que eu criava davam nisso, ela-não-gosta-de-mim-mas-não-tem-fim-o-meu-jeito-de-amar.

Depois dela teve a Lisete, ela namorava o Duval, Duval galinha, amava qualquer perna que passava, e Lisete nada, confiava até a última espinha do rosto, se enganava, a bichinha, até descobrir tudo. Então era choro no meu ombro, cabelo dela embaixo do meu nariz faminto, é, e eu querendo aquele riacho de lágrima só pra mim, abraçava, consolava, tirava casquinha, discreto feito viúva grã-fina no velório do finado, na cabeça dançava a musiquinha esquece-dele-olha-pro-lado-olha-pro-outro-dos-dois-tem-eu-pra-ti, assim surgiu Dois Lados, meu primeiro sucesso, tocava em bailão, depois foi pra AM da cidade, depois pegou o mundo.

Em seguida a Lisete vieram todas, minha filha, cada chaga uma música, o sorriso de Jussara que guardei no bolso, era um talismã batendo contra as moedas, riqueza de Deus!, então o cheiro de Fábia, ô mulher-perfume-de-excesso, rendeu versos com memória de goiaba, Lindalva, Rogéria, Anastácia, Teresa, Maninha, Berenice, Loreta, Gilvanete, Cassiane, dezenas, talvez até mil com todos esses shows que já fiz, cada amor uma vela para acender em forma de ritmo, som, versinho safado ou melodramático.

Todos esses meus sucessos vieram assim,  desse partido político que é o amor, filiados espalhados pelo mundo inteiro, em qualquer ponto do planeta você encontra um levantando a bandeira, não é? Claro que sempre existem os descornados, aqueles que acreditaram e beberam desilusão, nesses amor é óleo de rícino, não é, desce a garganta, promete cura, mas o que faz é destruir fígado, rim e aquele tiquinho de esperança que o programa do partido prometia.

Uma mensagem final, deixa eu pensar, podia dizer que todo amor é eterno, afirmar Vinícius, eterno enquanto dure, ou melhor, melhor, encerrar com trechinho da minha nova música, certeza que entra em abertura de novela, hein minha filha, anota aí, vamos terminar essa  entrevista com algo que essa gente de nariz torcido não gosta, jeito kitsch, brega, eles falam, não é, escreve aí, se amar fosse um pirulito eu chupava devagar pra nunca acabar.

 Imagem: Djamião
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Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Setúbal rima com canivete!
    Afiado (lembrou os meus verdes anos)
    Bela celebração para o Dia do Escritor!!!

    Arrassou!!!

    • lsetubal

      Valeu, querido amigo! E acredito, mesmo que de caso não-pensado, se tornou uma celebração pelo Dia do Escritor. Afinal, quem de nós, fervorosos da palavra, nunca teve de criar riminha fácil na escola? Beijocas!

  2. Adorei… pra mim já virou frase célebre: “amar é feito gripe, dá mais que uma vez, deixa o nariz escorrendo, é sempre choro quando ele acaba”. Bjs, Lú…

  3. Marcus

    Legal hein!!!! Mostrou bem o sofrimento dos homens!!!!!! rsrs

  4. Thais Hohl

    Setùbal… gostei muito, mas darei também os motivos, pois como digo aos alunos, poque sim não vale, tem que justificar. Gostei, muito, pois tem ritmo, a gente quase perde o folego lendo e… gosto disso. Também tem um ar de desgraça bem humorada, adoro. E, o mais importante, foi feito pela sua pessoinha, isto é tudo. Beijos de Gabito, Jorge e mais euzinha.

  5. raquel ferro

    rosa vermelha pra destravar paixão ou curar briga, ou expressar orgulho da amiga… vc merece um buquê daqueles.. escreve no ritmo da paixão, com coração acelerado… adorei.

  6. angeline

    Parabéns amiga!! Adorei!! Bjão!!

  7. naneteneves

    Amar é brega, quase sempre resulta em dor, é feito gripe, mas também pode ser bom-humor. Taqui um exemplo.

  8. O tema foi muito bem explorado, o formato de entrevista, que não é revelado no início, também funcionou muito bem. Parabéns!!

  9. Lú, adorei o texto, você cada dia mais afinada, criando canção cheia de melodia e ritmo. bjos

  10. Lú, pra variar, mandando muito bem em outro texto seu. Sempre bom ler um texto dessa pessoinha! Beijão

  11. José Carlos Malafaia

    Seu texto é Brahms… Beijos. José Carlos.

  12. Lu, que bacana esse texto e ainda mais essa frase “Todos esses meus sucessos vieram assim, desse partido político que é o amor…meus sucessos acontecem por Amor, porque por ele “AMOR” nos empenhamos para almejar a realização dos nossos sonhos….eita coisa BEM BOA!!bjs
    Alexandra Campos

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