Peggy Sue e o soco no nariz do tubarão

Seu nome, Peggy Sue. Era a caçula de quatro irmãos, todos iniciados com jota: Jacira, Jorge e Jussara. Seus pais, José e Jandira. Os avós maternos, João e Janete. Dos paternos nunca teve notícia, já que seu pai crescera num orfanato.
Quando pequena queria um nome que iniciasse com jota, por isso nas brincadeiras de escola fingia ser Júlia, Juliana ou Janice. Tinha fixação por palavras e coisas que começassem com a letrinha que não tinha em seu nome: jujubas, Júpiter, japoneses, jipes, jacarés…
A mãe de Peggy Sue morreu durante o seu parto. Diz-se que o nome da menina surgiu de improviso, enquanto o pai se dirigia ao cartório de registro e no rádio tocava a famosa canção do ex beatle.
Não era só o nome da menina que fugia à regra familiar. Peggy Sue desde pequena tinha algo que não se explicava ou adequava à idade. Parecia movida por uma vontade própria e fora de qualquer contexto, inspiração às coloridas personagens de Antonioni em Blow Up, caso tivesse nascido naquele tempo.
Se o nome de batismo fosse Jade ou Jéssica, seria Peggy Sue normal como os irmãos? Perguntava-se o pai desolado, amargando sua culpa em silêncio.
Aos doze fumava na sacada ao som de Billie Holiday. Quando eu fechava a janela do quarto já tarde da noite, podia ouvir Peggy Sue cantarolar Please, Don’t Talk About Me When I’m Gone, e pensava como uma garotinha como ela podia conhecer Billie Holiday. Tia Sueli diria que Peggy S. já nasceu um espírito velho. Eu diria que Peggy Sue não nasceu, foi fruto de uma alucinação coletiva.
Um dia foi sorteada para participar de um programa de auditório. Era a convidada mais jovem. Errou todas as resposta do quiz, o que lhe custou um prêmio milionário. Mas a menina não foi desclassificada por falta de conhecimento, e sim porque se encantou com um músico da orquestra, para quem, terminado o programa, cantou Billie Holiday com toda propriedade. Diz-se que o homem pediu-lhe que cantasse ao apresentador do programa, e aos treze Peggy Sue acabou contratada como backing vocal do dominical de maior audiência na tevê.
Diz-se ainda que enquanto as meninas do bairro se enamoravam dos rapazes por seus belos carros, ternos feitos sob medida com as iniciais gravadas e promissores negócios paternos, Peggy Sue se apaixonara pelo músico em função de uma dica que ele lhe dera no intervalo de gravação do programa: “se algum dia for atacada por um tubarão, salve-se acertando um soco bem no meio do nariz dele, mas tem que ser com força…”.
A última vez em que a vi foi numa noite sem estrelas no céu. A menina dançava na sacada com seu par invisível e cantava num tom acima do habitual. Algumas janelas se fechavam irritadas pelas mãos de mulheres a quem Peggy Sue lembrava como era bom ser livre e feliz. Os maridos não defendiam a liberdade da vizinha, de modo a agradar as esposas, mas espionavam Peggy Sue admirados enquanto suas mulheres tomavam banho ou botavam as crianças para dormir.
No dia seguinte comentou-se na vizinhança que a menina cantara e dançara a noite toda na janela de forma muito sensual, que só poderia estar sob efeito de algum cigarro proibido ou chá alucinógeno (quem sabe os dois?), ocasião em que a Presidente da Associação das Amigas da Moral e Bons Costumes Alheios do bairro convocou reunião extraordinária, de modo a tomar ostensivas providências em relação à presença de Peggy Sue na comunidade.
O fato é que a partir daquele dia, como que prevendo algum tipo de represália, a menina não foi mais vista pela redondeza, nem no dominical.
A vida dos moradores perdeu um pouco da graça depois da partida de Peggy Sue, mas mesmo distante suas histórias continuavam a correr o bairro. Ora diziam que estava em Baltimore, tocando com a Orquestra Sinfônica. Ora que ganhava a vida fazendo vitrine viva na Red Light. Até que pegara segundo lugar na 25ª Maratona de Paris comentou-se.
As notícias que chegavam de Peggy Sue alimentavam a alma dos moradores e a falta de novidade no bairro. Até que um dia chegou a nova. Peggy Sue estaria namorando um marinheiro norueguês de nome Jacob, e em suas aventuras errantes pelo sul da Austrália mergulhavam na península de Eyre quando foram atacados por um tubarão.
Consta que o namorado morreu antes mesmo da primeira mordida, o pobre sofria de sopro cardíaco e não podia com susto. Já Peggy Sue, dizem, armou seu melhor soco e enterrou uma de direita bem no meio do nariz do tubarão. Mas como eu já dizia lá em cima, Peggy Sue perdeu a mãe no parto, nunca teve a sustância provinda do alimento materno, o que fez com que o soco magrinho da menina provocasse apenas cócegas no implacável animal cheio de dentes.
Peggy Sue morreu como uma heroína, é o que dizem, pois se ela morreu, quem haveria de contar essa história, o tubarão?
Ocorre que depois desta nenhuma outra foi contada.
Nas noites de céu sem estrelas (e também nas estreladas), quando já é madrugada e me aproximo da rua pra fechar a janela, posso jurar que escuto a voz quase infantil de Peggy Sue cantarolando Billie Holiday na sacada: Please, Don’t Talk About Me When I’m Gone.
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  1. Muito bom! Denise, pede pro Mister Lúdico fazer umas ilustras pra essa “louca” história.

  2. José Carlos Malafaia

    Alucinante alucinação alucinada. Beijos. José Carlos Malafaia.

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