Autópsia

Foto: Fernanda Frias

Foi quando Matilde se viu morta na banheira de seu apartamento é que teve a clara idéia da situação. Primeiro deu a si o direito de indignar-se pela sua morte, não recordava dos últimos momentos, nem de qualquer dor que pudesse ter sentido antes de morrer. Nenhuma imagem.

Esses não eram os meus planos pra agora

Não se desesperou. Assumiu seu novo estado – não de espírito, mas de não-vida – mais rápido do que sempre pensou que seria. O espelho, sem reflexos; apenas a toalha seca pendurada. Não sentia mais cócegas nem vontades, desejos, sede, fome, frio, sono. O fato era que estava morta e Matilde sabia não poder mudar isso.

Não lembro do filho da puta…

Há quanto tempo estaria ali, um dia, doze horas? Tentou calcular: dedos enrugados, pele esbranquiçada; sua conclusão: impossível saber. Nua na banheira, notou os seios inchados de bicos duros. Nem o gigolô com que Vitória sentiu mais tesão havia deixado seu corpo assim. As pernas abertas, a mão no ventre… Quem sabe teria sido estuprada enquanto sufocava por estrangulamento, mas seu pescoço não carregava marcas. Sem manchas no corpo, expressão serena.

Não entendo…

Olhou ao redor, não viu sinal de sua resistência. Nenhuma marca de sapato, a porta estava encostada, fechadura intacta, chave presa do lado de dentro. Deu alguns passos para trás, procurando detalhes que pudessem ajudar. E pensou: o sabonete. Água parada, ainda transparente, foi fácil ver que não estava lá. Mas Matilde não tinha o costume de entrar na banheira sem o sabonete… Não estava se preparando para o banho, então.

O que eu estava fazendo?

Foi para o quarto. Cama arrumada, janela fechada, televisão ligada no seu programa favorito, nada fora do lugar. No criado-mudo, a bandeja com o resto do lanche e o copo de suco vazio. Num começo de calmaria, Matilde passou a assumir a hipótese mais provável:  não havia uma outra pessoa, foi coração. É, foi o coração, só podia, era cada vez mais comum em jovens com a vida que levava: trabalho, estudo, festas, drogas, sexo…

Fatalidade, era minha hora.

Mal terminou de pensar e emudeceu os próprios pensamentos. Reparou num filete de papel com duas listras azuis sobre o travesseiro e um vidrinho com um pó preto do lado. Um flash lhe trouxe a imagem de uma transa, dos gemidos, do gozo. O filete de papel. Não era dipirona. O filete de papel e duas listras azuis. O copo. No resto de suco, algumas bolinhas pretas. As listras azuis. As bolinhas pretas. Correu de volta para o banheiro. As mãos no ventre, o criado-mudo, o copo, as listras azuis, o ventre. Um suspiro. Havia sim uma outra pessoa.

É, eu não teria futuro…

Não sentiu arrependimento. Agora não teria mais preocupações, não teria mais vergonha e, com certeza, Matilde havia pensado em tudo isso quando tomou o último gole

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Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta.

  1. Belo texto!!!
    Aflitivo, angustiante e contundente.

  2. Uau Bia!!!!! Texto do tipo que adoro! Gostei demais da temática, do sangue frio da Matilde, da evolução que você deu para o texto e seu desfecho. Brilhante. Parabéns!

  3. Aline Viana

    Nossa, Bia, muito bom!!!
    Não conhecia ainda essa sua veia policial, rsrsrs

    Bjs

  4. Texto muito bom. A história me prendeu no início e me arrastou até o final.

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