A AMPULHETA E A CLEPSIDRA

Fotografia: Rafael Santos

médica: o tempo é como um rio que passa num fluir constante, infinito. o tempo corre e do ponto em que estou não diviso o futuro para onde se dirige e mesmo o passado se dilui rapidamente ou despenca em corredeiras irreversíveis. uma fila de agoras serpenteia em seu leito e cada momento é para mim tão fugidio como um peixinho de mercúrio que eu tentasse sepultar entre os dedos. quando a vida acena seu instante luminoso já é fora e longe da posição que me destinam. posso aplicar num gráfico as variáveis deste mundo, tempo e espaço. posso fixar o presente entre x e y, mas o ponto onde houve a vibração já não é mais do que poeira. ontem sobre ontem sobre ontem. a ampulheta e a clepsidra. a areia e a água e o rio que me atravessa. mas nem a umidade dos musgos me irrita. nada decanta sobre a minha pele. sou eu ou é o tempo que tem matéria impermeável? sou eu ou é o tempo que corre fustigado por chicotes invisíveis? meu coração é o motor de uma máquina que avança. ali, além, para onde aponta o vetor das horas, é para lá que me dirigem cegamente. se eu pudesse de dentro deste leito lançar a rede, estender a corda, ou simplesmente te puxar pela mão. se há esperança, ainda que remota, de lançar a rede, esticar a corda, estender os braços na sua direção, é no fio deste anseio que eu busco te prender. um pouco mais e já ganhamos a margem, um passo a mais e já subimos na ponte. sabe, eu te falaria, tem um rio lá embaixo, como é voraz, vejo o rio arrastando tudo, como é voraz, mas estamos sobre a ponte e no ponto em que estamos nada nos atinge. sabe, há muitos afogados, lá embaixo passa um rebanho assustado. mas estamos aqui. meu ofício é resgatar e amansar angústias. pontes são transitórias, esmorecem como os ânimos. mas meu ofício é inventar pontes novas. não aceito sobre os ombros o peso morto da saudade. não almejo o futuro incalculável. se é hoje, será hoje, apenas hoje. se é neste quarto, será neste quarto que me debaterei como a mariposa. até a luz me envenenar e começar tudo de novo. o tempo é como um rio.

paciente: meu tempo não é como um rio e nem flui infinitamente. apenas vigora entre duas noites. sei que um dia comecei em meio ao que já pulsava e que um dia, qualquer dia, pode ser sem mim. sou como a onda que se encapela no mar e que reflui sobre o próprio avesso antes de dissipar-se. este ponto que você chama presente não é o trânsito entre ontem e amanhã. aqui não se perde a matéria passada. a memória habita o instante e o anima. e o estende, assim como os sonhos. assim como projeto e ânsia, aqui também mora o futuro antecipado. no ponto em que estou não estou. antes e depois se anunciam aqui. eu transcendo o agora, mas tenho fim. meu tempo não é como o rio infinito e por isso despertei. lancei um dardo para o futuro e atingi meu coração. quem antecipa a própria morte é convocado a si. no mais longe de mim, me sequestrei. como a onda que avança, mas se volta para dentro antes de perder-se, volto-me para a verdade antes que o tempo pare. assim não opera mais em mim a sua ajuda. não vou aceitar o apoio dos seus braços nem sua receita de satisfação. a partir de agora, quando você vir o meu aceno, não se preocupe em jogar a rede, retribua simplesmente e digamos adeus. ou então venha de fato até esta noite, onde a sombra de cada coisa está tão viva como cada coisa. sei que é difícil mover-se. há tantas distrações. novidade sobre novidade, e a curiosidade de tudo, e a promessa narcótica do infinito. você me entende? será que minhas palavras em meio a tantas palavras ressoarão no bronze da sua tristeza? ou não há mais tristeza, nem dúvida? o rio arrasta hordas de iguais, afogados no consenso de que é assim. mas a onda, que logo ali dissolverá, enovela cada um sobre o âmago inédito de um destino. quando ela riu seu riso insondável na minha cara, e arruinou o conforto da minha ignorância, pôs-se em marcha a urgência desta fratura. meu tempo é o lampejo fugidio do ser. a onda que se encrespa no mar. agora eu vejo. alguma coisa cintila na escuridão.

fim

Cláudia Maria de Vasconcellos nasceu em 1966, em São Paulo. É mestre em Filosofia e doutora em Letras pela USP. Atua desde 1994 como dramaturga, tanto no teatro adulto como no infantil. Autora dos livros Uma história da China (nova Alexandria, 2005), As roupas do rei, seguida de Inventa-desinventa (SM, 2007), A mulher no escuro (Ateliê 2007), As histórias de Marina, (Global, 2008), O cigano e o gigante (Prumo, 2010) e a Fome do Lobo (Iluminuras, no prelo).
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  1. Tempo
    Tempo
    Vou lhe fazer um pedido …

  2. naneteneves

    A recusa das receitas de satisfação, o aceite da tristeza e se deixar levar. Esse texto envolvente e reflexivo fez melhor minha manhã.

  3. Claudia você nos felicitou com essa beleza de texto. Poético, reflexivo, de uma tristeza/melancólica resignada diante do tempo e de nosso prazo de validade nesse mundo. Me emocionei. Obrigada!

  4. CLAUDIA MARIA DE VASCONCELLOS

    obrigada, pelos comentários generosos.

  5. Belíssima reflexão sobre o tempo, um dos grandes temas da literatura e da vida. Contemplamos, conceituamos, discutimos, regateamos, enquanto isso ele nos devora.

  6. walkyria Britto Lima

    Claudia, Belissimo texto!.Nao me lembro onde li que Piicasso diziaque a arte e uma mentira que conta a verdadeSeu texto me faz reforcar o sentimento::meu Tempo e o MeuTempo e, ja esta morto.Saolembrancas de algo que ja desapareceuQueremos que avida nao acabe e pra isto ate re-inventamos aTerceiraMargem do Rio.e criamos eternamente o Tempo.
    Obrigada pelo instsnte tao grande de pensar sobre Meu Tempo
    beijo saudade(fruto do TEMPO)

    • walkyria Britto Lima

      Claudia querida ,
      foi tanta coisa chata pra resolver com p professor que acabei deixando delado meu comentario e a orientacao de como enviar.Vou escrever nesse espaco. concordo com vc talvez seja um ajuste de linguagem sei la

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