Carne de pescoço

Meia-noite chegou e trouxe uma horrenda tempestade. O vento de tão forte parecia que ia furar as paredes. (Ui, que medo). Escondida debaixo do cobertor pude escutar as batidas na porta. Estranhas, muito estranhas. O que alguém poderia querer àquela hora e numa noite daquelas? E por que bater na minha, justo na minha, porta? O meu lado amoroso, generoso, bondoso falou mais alto. Abri e não havia ninguém. Olhei. Nada de um lado e nada do outro. De repente, um vulto passou por mim. (Ui, que susto!)

Ao olhar para trás, uma figura lúgubre estava parada no meio da sala. Gelei. Quando sorriu pude perceber pelos dentes que era ele: o Conde Drácula, o mister Vampiro em pessoa (pessoa ou … bom, deixa pra lá). O jeito foi disfarçar o medo:
– Mas a que devo, eu, pobre mortal e bela donzela, a honra de receber um conde em minha casa singela.

Nem precisava perguntar. A risada pavorosa deixou claro do que ele estava a fim. (Essa do Conde Drácula sair da tumba e voar para minha casa seria despacho de macumba?) Mas eu, que sou de espírito corajoso, que não vejo maldade em ninguém, que vim a esse mundo com alma de querubim, só queria o melhor para o meu mais horrendo hóspede. Expliquei que, por conta de uma anemia profunda, se alimentar do meu sangue, que era de má qualidade não seria nada bom, nada bom, para alguém com tantos séculos de idade.

– Meu querido e honrado senhor, para que correr perigo? Vou me encher de coisas bem gostosinhas e meu sangue vai virar uma saborosa comidinha. Está vendo que agora sou puro osso? Assim que este dedo mindinho pesar um quilo terá o meu pescoço.

Conde Drácula, guloso e, principalmente, vaidoso do jeito que era, topou a parada e num canto da casa ajeitou o caixão. Para não ser vampirizada logo de cara toda noite comecei a contar uma história para o Conde e, quando terminava, não é que ele queria mais:

– Sei bem, meu prezado mestre, que esta história prende a atenção, mas se me manteres viva, amanhã saberá a continuação.

E assim foi não sei por (sei lá) talvez umas mil e uma noites. Para amansar o seu desejo vampiro todos os dias, como perfeita anfitriã, colocava no cardápio de Drácula muita picanha crua, doces, refrigerantes, batatinha frita, cachorro quente, salgadinhos de mercado e fast food de toda sorte. E logo, o Conde quase nem mais lembrava de sangue. Uma noite, depois das minhas histórias, sugeri a ele, tão solitário, que aproveitasse a tranquilidade da madrugada para passear pelo centro da cidade. E não é que o mísero quase morreu! Uma vez ficou sem a carteira e noutra cinco homens trancaram o infeliz num porta-malas a noite inteira.

– Não me diga, oh mestre, que agora está apavorado e com medo sair? Vamos, tome estes compridos azuis para dormir e estes verdes para do caixão conseguir sair.

Como o amado mestre não saia mais de casa, encontrei um jeito para lhe distrair.

– Oh, meu poderoso senhor, todo dia lhe trarei um jornal para levantar o seu astral.

Mas as notícias que ele lia lhe tiraram eternamente a paz. E num dia, Drácula teve taquicardia, suou frio e quase desmaiou. O diagnóstico do médico mostrou que o Conde estava com síndrome do pânico, diabetes, hipertensão e colesterol. Tudo por conta de muita gordura trans, açúcar e alta ansiedade por causa das leituras sobre tantas atrocidades. Fiquei desolada. Eu que cuidei tanto do seu bem-estar.

E num dia, quando cheguei em casa, encontrei o coitado endurecido no chão. Ao lado, um jornal aberto na página com os resultados da última eleição. Contei para todos:

– Imagine só, gente! O colesterol, diabetes, a hipertensão e, principalmente, as barbaridades de hoje foram para o Drácula pior que uma estaca no coração.

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Sobre sandrareginasantos

Nasceu em Londrina

  1. Quase como um casamento!!!

    Sandrazade
    Sherasandra.(ui…. que furo !!!)
    Condessa Drácula ..

    bom .. gostei ..

  2. Menina danada! Pobre Drácula. Não imaginava que a vida na terra fosse tão desgastante. Parabéns pela bela história Sandra. Me prendeu a atenção também.

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