Maldita!

Ela me assombra de novo. Sempre querendo mais de mim. E eu, fraco que sou, cedo sempre aos seus caprichos. Às vezes, juro que quero ser mais forte, mas ela sempre tem a última palavra. Tento disfarçar, busco me distrair com outras coisas. Vou ao cinema, saio pra jantar com amigos, flerto com algumas garotas na vã esperança de esquecê-la. Mas não consigo.

Vou pro futebol, grito, xingo, dou murros e chutes em portas, paredes, vitrines. Tento provar a mim mesmo que sou forte e que tenho o controle absoluto. No entanto, basta ficar a sós e lá vem ela. Traiçoeira, reptiliana, maquiavélica.

Maldita!

Ela sabe que me tem em suas mãos! Odeio-a com todas as minhas forças.

Outro dia, na empresa, conversando com meu chefe, decidi fazer terapia. Quem sabe assim me livro de vez dela. Será minha última cartada, pois não sei mais o que fazer. Se não der resultados, talvez tome uma atitude radical.

Ao chegar ao consultório, me senti um imbecil. Enquanto aguardava na sala de espera revirando uma revista de moda, pensei com meus botões:

Ronaldo, o que você está fazendo aqui? Pelo amor de Deus, homem! A que ponto chegou!

Numa atitude de total desespero, levantei pra dar o fora, mas, bem nessa hora, a porta se abriu e o psicanalista me convidou pra entrar. Não tive escolha.

O doutor Lopes sentou-se confortavelmente em sua poltrona azul e fez sinal para que me sentasse em seu divã.

Como um cordeiro indo ao abate, sentei e esperei.

– E então meu rapaz? O que te trouxe aqui para o meu divã? Abra seu coração, sua mente e seu espírito, pois farei o possível pra te ajudar. O que estiver ao alcance da psicanálise, pode ter certeza que empregarei.

Olhando para minhas próprias mãos, que se encontravam suadas, comecei a falar baixo.

– Desde pequeno que sinto atração por ela, doutor. Mas sempre me controlei pra não dar bandeira nem ceder à sua atração.

No entanto, desde que entrei na adolescência, ela passou a ser uma obsessão pra mim. Tentei me desvencilhar, conhecer outras coisas, preencher minha vida pra tentar tirá-la de minha cabeça.

Quando entrei na faculdade e mudei pro interior, fiquei por algum tempo aliviado achando que finalmente acabaria. Afinal, a distância ajuda a esquecer. Também iria conhecer outras pessoas, ter outras experiências, amadurecer, enfim, iria esquecer e, lá na frente, ela seria apenas uma desbotada lembrança. Até consegui viver bem por um tempo. Mas bastou me formar, conseguir um bom emprego, ter um bom salário e ela ressurgiu em minha vida com tudo. Doutor, me ajuda a sair desse inferno em que vivo. Se não conseguir, acho que acabo com tudo. Não aguento mais viver assim!

– Calma! Calma! Seja sincero comigo. Ela por acaso é uma mulher que te persegue ou uma droga que você utiliza e deseja se desvencilhar dela?

– Nem uma coisa. Nem outra. Melhor dizendo: as duas. E um pouco mais.

– Ronaldo, seja mais claro nas suas colocações. Você fala por mensagens codificadas. Assim fica difícil te ajudar.

– Doutor, coloco como as duas porque é ladina e sedutora feito uma linda mulher. E me viciou como o pior dos tóxicos. Por mais que meu lado racional diga que não devo, simplesmente não resisto ao seu apelo.

– E isso tudo tem um nome para que eu possa ver mais claramente e te ajudar? Ou terei de decifrar essa charada?

– Sou cleptomaníaco. Não resisto a roubar coisas que posso comprar. O prazer que esse ato me proporciona é infinitamente superior e mais profundo do que qualquer gozo que tenha tido ao lado de qualquer mulher. Só que logo em seguida, vem o remorso, a vergonha, o medo de um dia ser pego em flagrante.

Maldita! Maldita! Maldita mania essa minha!!!!!!!!

– Humm…deixe-me ver. Desde pequeno que tem esse costume?

– Sim

– Sofreu alguma violência durante sua infância? Tem lembranças?

– Não. Quase não tenho lembranças de minha infância, doutor.

-Bom, meu rapaz, traçarei um plano de tratamento para te curar, mas conto com sua ajuda. Você é o único que poderá dar um rumo diferente para sua recuperação. Posso contar com essa ajuda?

– Pode, doutor! Pode! É o que mais desejo no momento. Me ver livre desse tormento.

– Então, combinado. Enviarei por e-mail algumas questões pra você me responder e também traçarei metas que você terá de se esmerar em alcançar. Trabalharemos semanalmente nessas questões. Você, com o tempo, se sentirá bem melhor. Marque com minha secretária um horário pra semana que vem.

Após mais alguns conselhos e recomendações, despediram-se na porta do consultório.

Voltando para sua poltrona, Lopes volta-se para a janela que dá para um bonito bosque e fica em estado meditativo tentando compreender um pouco melhor esse novo paciente e sua problemática. Após alguns minutos, se alonga. E é aí que nota a falta de uma das abotoaduras. Faz uma busca rápida com os olhos. Agacha-se, olha por debaixo da mesa, da poltrona, do divã.

Sorri de forma enigmática e completa seu pensamento em voz alta:

– Não é que o danado do rapaz levou minha abotoadura pra dar uma volta?

Maldita! Maldita! Maldita mania!

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participa das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Colabora no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Legal .. gostei .. mostrou uma outra Roseli …benvinda!!!

  2. Márcia Muller

    Oi Roseli! Adorei! Livre, leve e solta. Beijos

  3. Hahahahaahaha
    Muito boa, Roseli!
    Deu até uma saudade do meu mini-conto que fizemos nas aulas da Andrea! Laurinha e Ricardo, Ricardo e Laurinha…

  4. (Meu amigo italiano deixou esse comentário em meu hotmail)

    Que bom! So’ por isso valia a pena ir ao analista. Sao eles a maldiçao suprema da humanidade.
    Parabéns e abraços!
    Alessandro

  5. Bela mistura de suspense e humor!

  6. Aline Viana

    Gostei bastante, moça! Fiquei totalmente presa ao suspense tentando adivinhar o que seria essa obsessão 😉

  7. Não conhecia esse seu estilo mais solto e gostei muito. Parabéns.

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