O irmão de Laurinha

May Vale, Austrália

May Vale, Austrália

Toda vez que alguém duvidava do que dizia, Laurinha colocava uma pedra: “Quem disse foi meu irmão, credenciado pelo Instituto Tecnológico de Massachusetts…”, como se aquilo bastasse para encerrar o assunto.

Mas sempre tive dúvidas se era mesmo o irmão que falava, ou se usava o artifício para tornar inquestionável e definitiva qualquer abobrinha que tivesse lido em algum lugar, ou até mesmo inventado.

Até que num dado momento, bastava dizer com sua voz de gralha “Quem disse foi meu irmão…”, para o interlocutor, ou o bando deles, completar imitando sua vozinha “… credenciado pelo Instituto Tecnológico de Massachusettssssssss”.

O fato é que passei alguns anos ouvindo Laurinha falar do irmão, do instituto e de todas essas teorias que nunca soube se eram mesmo assim tão indiscutíveis, ou fruto da imaginação daquela mente perversa.

Pois a malvada tinha um trunfo que nos roubava qualquer argumento. Seu irmão era mesmo credenciado pelo Instituto Tecnológico de Massachusetts.

Ou ao menos morava em Boston, pois todas as vezes em que chegava uma carta ou postal, a mãe de Laurinha corria mostrar para a vizinhança, e meu avô, filatelista, se tornara o portador oficial dos selos, e eles vinham da terra do Tio Sam.

Então um dia, quando eu estava prestes a completar 16, fiquei sabendo que o irmão sabido tinha chegado na cidade, e que a família de Laurinha preparava um jantar de boas-vindas.

Já logo imaginei como seria o tal futuro Prêmio Nobel, e certamente na minha imaginação ele usava óculos, daqueles que deixa qualquer um com cara inteligente.

Imaginei também a faixa de boas-vindas que o esperaria na rua: “Welcome Home, Sabido!”, com itálico no inglês e tudo.

E imaginei ainda que roupa eu usaria no tal jantar, e que coisas inteligentes diria, caso o irmão ilustre me desse a honra da palavra.

Mas um imprevisto aconteceu.

Laurinha me chamou para fazer o dever de escola em sua casa, o que, se por um lado me colocava na privilegiada condição de amiga-da-irmã-do-credenciado-em-Massachusetts, por outro atrapalhava meus planos de estudar alguns temas inteligentes até a noite do jantar, como física quântica ou o controle de Israel sobre as fronteiras com a Cisjordânia.

Então me restou passar em casa correndo, e pegar um dos livros da biblioteca do vovô.

Escolhi o de poemas de um escritor argentino, presente do Dr. Altamiro, advogado amigo da família, que apesar de nunca ter estudado no Instituto Tecnológico de Mstts, nem ao menos estado em Boston, gozava de boa reputação intelectual na cidade.

Logo concluí que Dr. Altamiro e Jorge Luis Borges, o poeta argentino, seriam minha salvação.

Na casa de Laurinha não conseguia me concentrar no dever, ocupada em retirar os cadernos que a irmã-ilustre insistia em empilhar sobre o meu livro de poemas. Ele tinha que estar à mão para quando, a qualquer momento, o sabidão entrasse na sala.

E ele entrou. Para minha surpresa – e certa indignação – era um rapaz bastante comum, sem os óculos da minha imaginação, com um bate-papo à toa.

Fiquei esperando o momento em que falaria de teorias as quais eu nunca tinha ouvido, e de histórias mirabolantes que teriam acontecido com ele durante todo esse tempo em que estivera fora, mas nada.

Não parecia muito interessado em repetir o que provavelmente todos queriam saber de um credenciado pelo MIT.

Perguntou minha idade e eu respondi “quase 16”, girando a capa do livro em sua direção, o que não surtiu nenhum efeito, nem prolongou o assunto.

Então perguntei se gostava de poemas, disse que estava lendo Borges e nem era para a escola.

O irmão sabido deu de ombros, exclamou Bullshit e disse que nesse ponto concordava com Bloom, “respeitado ensaísta norte-americano”, de que Borges era muito difícil de assimilar.

Eu que nunca tinha lido nem Borges nem Bloom, e não contava que o Dr. Altamiro fosse presentear meu avô com um livro que desmoralizasse a família, inventei uma desculpa qualquer para fugir dali, com o argentino debaixo do braço.

Estava muito confusa, mas decerto ele tinha razão. Eu ainda nem tinha 16, o Dr. Altamiro nunca havia saído da nossa cidade, papai odiava argentinos, e ele… ele era o irmão de Laurinha, credenciado pelo Instituto Tecnológico de Massachusetts.

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  1. What do you do Denise?
    Gostei …
    “Welcome Home, Sabido!” foi um achado!!!

  2. Já estava com saudade de suas histórias, Denise Ranieri.

  3. Boa Denise! Mas cá entre nós, você acha que ele conhecia Borges? Báh!

  4. Fascinante o tom bem humorado desta história.

  5. Obrigada, Guimarães Rogé (que energia boa tem esse nome)! 😀

  6. Essa sua Laura me lembra aquelas meninas enxeridas que conhecemos na infância, sempre recorrendo a coisas-pessoas-de fora do assunto para credenciarem todas as suas opiniões. Voltei no tempo, juro, e lembrei de algumas dessas Laurinhas…rs

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