Fé desvirtuada

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Imagem: Mondopanno

O diabo é pequeno, mesquinho e realmente não tem o que fazer. Eu sei. Senão, o que ele estaria fazendo aqui em casa? Não tem ninguém aqui, só eu. E estava tomando banho na hora em que ele chegou. Agora ele está fazendo uns barulhos estranhos lá no meu quarto pra me perturbar. Como se algo estivesse caindo, não como uma folha sendo jogada ao chão, mas como se algo pesado, como um livro ou o telefone, caísse da estante.

Dessa vez, eu não vou sair enrolada na toalha, toda molhada, para ver o que é. Eu sei que é ele e isso basta. Se eu fosse ver, ele ia se esconder. Porque ele gosta de ficar brincando com a minha cabeça. Quer me deixar louca. Da primeira vez achei que fosse um bandido e me tranquei no banheiro até o Marcelo voltar do trabalho. Claro que eu desliguei o chuveiro, né? Não ia ficar gastando água esse tempo todo. Mas pelo menos consegui disfarçar bem e saí cheirosinha e linda pro meu amor. Com ele em casa, o capiroto não faz graça.

Teve uma vez que eu pensei que fosse um bandido. Só tinha eu e nossa bebê em casa. Eu peguei num cabo de vassoura e fui ver o que era. Pela janela da cozinha vi um vulto passando pelo corredor. Respirei fundo e rezei para que quem quer fosse ir embora. Tudo ficou calmo por um momento, mas depois os barulhos voltaram. Parecia alguém tropeçando nos baldes lá fora. Abri a porta e tranquei em seguida. Fui sorrateira lá nos fundos, mas não tinha ninguém. E olha que até debaixo do tanque eu chequei. Na garagem também nada. Quem mais podia ser, se não o sete-peles?

Conversei com o pastor e ele concordou comigo que esses sons, esses sustos não são de Deus. Ele disse que a gente tinha que contar tudo pro meu marido e fazer um exorcismo aqui em casa. Imagina que eu ia dizer uma história dessas pro Marcelo! Pra ele me achar louca, mandar me internar nalgum hospício e pôr outra mulher pra dentro da minha casa? Na-nani-nanão.  Se não quiser fazer só comigo o exorcismo, não tem negócio.

O pastor ainda quis regatear, falou que então o jeito era chamar as irmãs e fazer um círculo de oração. E desde quando o coisa ruim tem medo de círculo de oração? Não é justamente nos círculos de oração por aí que ele mais apronta? Faz a mulherada cair tudo uma depois da outra? Eu, hein? Quando ia desistindo e ameacei chamar um padre, o pastor parou de fazer doce e marcou na agenda de vir aqui semana que vem.

Então agora, ele pode fazer o barulho que quiser porque eu vou acabar meu banho com calma. É até bom ficar aqui porque o chuveiro abafa um pouco do barulho. Ele está com os dias contados nessa casa. Tenho medo, mas tenho pena também… Se é só a mim que ele tem pra assombrar, a coisa tá realmente feia pro lado dele. Não estou desfazendo, não. Mas é que, sinceramente, antes ele… era… mais…

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Querida Aliene
    Lembrou-me uma antiga marchinha: Mas que diabo, assim não / pode ser, toda mulher que / passa você quer mexer / pode ser cafona, gorda ou / magricela, toda mulher que /
    passa você tá de olho nela
    Bom!!!

  2. Oi Aline,
    Mandou bem nesse conto! Ando cada vez mais gostando desse tema menina! Acho que vou me especializar, hehe!

    • Aline Viana

      Eu adoro esses temas religiosos, moça! Sempre tem umas histórias tão bacanas, nessas sou partidária do Moacyr Scliar, que sempre revisitava o tema. Bora entrar pro time 😉

  3. mirtes leal

    Aline, Aline, que diabo é isso? Tá parecendo o diabo de uma tentação, e na hora do banho! E esse negócio de não contar pro Marcelo, sei não… Gostei pra diabo, menina.
    Beijo, Mirtes

  4. Gostei desse diabo… é um diabo tipo “pegadinha do malandro”?

  5. Gostei, irmã, mas manda esse diabo pro inferno!

  6. O diabo do texto me pegou de jeito!
    😀

    • Aline Viana

      Que bom, hein, Dê! Agora é melhor acender uma vela e reze uma ave-maria e um pai-nosso, como diria o Marcelino 😉

  7. ops, jantar japonês para 13 sou eu, Denise Ranieri. rs
    beijoca!

  8. muito criativo este texto(ora,diabos,quem sou eu pra comentar!!??,tá bom,gostei).brincando de incomodada ou gozadora manda para o inferno ou adjacências um bocado de futriquinhas dos “salvadores” do mundo.por que não pede a opinião do “marcos desgraciano” sobre este texto??ãhn?a resposta dele era bem capaz de motivar outro texto!!ou quem sabe para o (d)e(vil)dir macedo?boas ideias,menina,se é que você precisa,duvido muito!continue a ensinar o que é escrever. .

    • Aline Viana

      Nossa, super obrigada, Eloir!
      E adorei as dicas 🙂 Sempre é bom imaginar e testar para onde as histórias podem nos levar 😉

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