Espalhando suas cinzas

(Imagem retirada do Google Rosa Fogo)

Acordei decidida a lhe prestar uma última homenagem antes de encerrar seu ciclo de vida em minha vida. Retirei do armário a caixa com todos seus pertences que havia recolhido quando você se foi.
Acendi velas e espalhei pela sala, coloquei pra queimar o incenso que tanto gostava. Toquei sua música preferida.
Orei por você.
Desejei de coração muita luz em sua nova vida.
Abrindo o baú retirei todas as fotos que por anos colecionei de você. Tenho aqui um verdadeiro dossiê. Fotos de todas as formas, ângulos, posições. Você sempre foi um verdadeiro pavão e sempre adorou posar pra fotos. Lembra? Dávamos tanta risada juntos nesses momentos “polaroid” em que você fazia caras e bocas pra que eu, seduzida, lhe registrasse para a eternidade.
Sempre reclamava com você para que sorrisse mais nas fotos. Adorava fazer pose de durão. Um dia ainda te perguntei se faltava algum dente em sua boca. Não entendendo minha colocação olhou-me intrigado e disse que tinha todos os dentes na boca e todos originais de fábrica.
Caí na risada diante de sua indignação e te provoquei tanto que acabou caindo na gargalhada também. Nossa convivência sempre foi assim. Lembra? Desde que nos conhecemos nossas conversas rendiam tanto e sempre caíamos na risada. Éramos tão leves!
Mas como tudo na vida tem começo, meio e fim, conosco não poderia ser diferente. As cobranças de ambas as partes passaram a pesar em nossas costas. O riso transformou-se num esgar de raiva e frustrações.
Você, que antes me achava tão meiga e delicada, passou a me chamar o tempo todo de paranoica, alucinada, doidivana.
Eu, que antes te achava um lorde, um verdadeiro cavalheiro que sempre sabia tratar bem uma dama, passei a te chamar de estúpido, cachorro, galinha. Isso quando não partia pra cima e te tascava uns tapas. Nossa convivência pouco a pouco de comédia romântica passou a tragédia grega.
Amigos começaram a se incomodar com nossas cenas. Vizinhos chegaram inclusive a chamar a polícia algumas vezes.
Tornamo-nos o casal indesejável em qualquer ambiente.
Até que não aguentando mais cometemos duplo homicídio. Você deu cabo de minha vida na sua. Eu te matei de vez na minha.
Hoje completa um ano de sua partida. Deixou um vazio tão grande que pensei que não fosse sobreviver. Cheguei a sofrer dores físicas com sua ausência. Sentia falta até mesmo de seus impropérios. Que loucura meu Deus!
Emagreci horrores. Fiquei anorética. Pele, ossos e uma cor acinzentada porque sua essência que me coloria havia se esvaído feito seiva de árvore. Você era meu alimento.
Perdi o viço, cabelos e os poucos que restaram tornaram-se opaco feito minh’alma.
Só não perdi meu emprego porque além de funcionária antiga, sou eficiente no que faço. Ou pelo menos era. As pessoas se solidarizaram com meu sofrimento e seguraram as pontas por mim e para mim.
Minha família se preocupou com minha situação penosa. Sei que comentavam entre eles o medo que tinham que me suicidasse. Mal sabiam que nem pra isso tinha forças.
Outro dia enquanto fazia compras no supermercado, ouvi uma conversa que me chamou a atenção. Ao ouvir seu nome parei e prestei atenção no teor do diálogo entre duas mulheres no corredor de produtos light.
Falavam animadas de seu casamento. Do quanto você estava elegante e de como sua noiva/mulher estava radiante no vestido branco.
Senti naquele instante que morria mais um pouco.
Saí largando tudo o que havia posto no carrinho. Corri feito uma gazela até que, já sentindo cólicas de cansaço e perdendo a respiração devido ao choro engasgado, parei. Percebi que sem querer fui dar no parque em que passeamos em nosso primeiro encontro.
Sentei no mesmo banco em que sentamos naquela tarde em que me deu o primeiro beijo tímido.
Chorei por horas. Pessoas passavam por mim, olhavam-me penalizadas, mas sem coragem de se aproximar muito. Era a própria imagem da dor!
Já anoitecia quando um policial parou ao meu lado e me ajudou a levantar perguntando delicado onde morava. Quase sem voz dei meu endereço e assim, fui levada pra casa.
Hoje completa sete dias desde então. Sete dias que Luciano, o policial que me trouxe, passa toda noite pra saber como estou, liga pela manhã para me dar bom dia e tem me confortado de todas as maneiras para que meu sofrimento amenize.
Parece um bom homem afinal.
Levei todas suas coisas pro quintal e lá, iniciei uma grande fogueira. Acompanhei os desenhos que o fogo e a fumaça fizeram do seu/meu/nosso passado. Em pouco tempo só cinzas restou.
E são elas que espalho agora pelo parque. Dando término ao que foi outrora nossa história.
Volto mais leve pra casa. Tenho planos para mim. Já marquei cabeleireiro, manicure, drenagem linfática e terapia.
Meu luto acabou.

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participa das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Colabora no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. E como diria a grande filósofa Dori: “Continue a nadar!”
    Grande lição de vida num conto literário. Uma pérola!

  2. Marcia Valerio

    É a história de muitos, que colocam suas vidas nas mãos de outra pessoa, que muitos possam ler esse texto, e cordarem. bjoks

    • E quem nunca viveu essa situação que atire a primeira pedra! Isso faz parte de nossa vivência. Uns acordam, outros não. C’èst la vie! Prima obrigada pela visita e comentário. Saudadona de você!

  3. Que maravilhoso conto esse! E a fumaça da fogueira se apagou e ele sumiu de tua vida. Vives agora!! Linda inspiração! beijos,chica

    • Oi Chica! Que alegria ter você por aqui! É, a fumaça expressa toda uma simbologia para apagar uma situação e seguir em frente. É nosso grande e difícil aprendizado. Obrigada pela visita e comentário. Bjs

  4. Edilene V. Pedroso

    Lindo , delicado e verdadiro texto : a necessidade do ser humano desfazer-se dos seus defuntos para renovar-se e seguir em frente.Parabéns!

  5. Belo texto, Roseli. A dor da personagem está bem retratada. Parabéns.

  6. Rose, achei bárbaro! Super bem escrito, verdadeiro, lindo!!!parabéns! Bjs…

  7. Marilda Mitsui

    Rose,
    Parabéns!!! Texto muito bem escrito, você conseguiu prender o leitor do começo ao fim! Bjs

    • Oi Marilda, obrigada pela vista e comentário. A ideia é essa mesma: prender a atenção do leitor e se estou conseguindo, minha missão está satisfatória. Vou continuar trabalhando para isso. Bjs

  8. “Meu luto acabou.” Eita, agora sai de baixo. Parabéns!

  9. Ricardo

    Bárbaro minha amiga!!! Que texto delicioso!!!!!

  10. Obrigado Rô, por mais este texto bacana. Não pare nunca querida, vc tem talento. bjo.

  11. Aline Viana

    Roseli, você capta super bem a intensidade do sentimento da personagem. Parabéns 😉

  12. naneteneves

    É isso aí, histórias mortas devem ser incineradas para abrir espaço para novas histórias. C’est la vie.

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