A Porta

Imagem: Slimmer Jimmer

A dor cobria todo o seu corpo. Acima de tudo, lhe doía a cabeça. Tentou abrir os olhos, mas não conseguiu. Não, conseguiu, mas foi como se não tivesse conseguido. Sentia o movimento das pálpebras, mas nenhuma imagem surgia. Levantou a mão direita em direção aos olhos e os tocou. Eles ainda estavam lá, se mexiam, piscavam, só não viam.

Onde estaria? O braço esquerdo parecia preso, com a mão direita livre adivinhou um cordão de borracha, que terminava num esparadrapo colado em sua pele. O corpo coberto por um fino lençol, e sustentado por um colchão. Devia estar num hospital. Os colares, pulseiras, a roupa apertada com que saíra de casa… disso tudo, nem sinal. Somente aquela escuridão e a dor, mais forte na cabeça e no abdômen, mas que se espalhava. Que hora deveria ser? Faltaria muito para amanhecer? Mas não era o véu negro da noite, da noite cansada por onde costumava perambular, por onde gastava o salto alto do sapato número 42. Era um verde escuro, acinzentado, nuvem de fumaça densa e sufocante.

Levantou outra vez a mão livre, e percebeu a cabeça enfaixada. De alguma forma, sobreviveu. A memória e o pânico o assaltaram. Corria, o pequeno canivete na mão, mas eles eram quatro, e tinham barras de ferro. Um chute, quase morreu por causa de um chute. Uma porta amassada. A vida de um pobre não vale uma porta de carro.

Estava na esquina, esperava aparecer um cliente. Ouviu a buzina e os gritos e jorrou o jato do extintor. Não era a primeira vez que esvaziavam um extintor em cima dele. O corpo e a roupa sujos, os xingamentos, a noite que terminava antes da hora, o dinheiro que não ganharia. Desta vez, o susto e a raiva dispararam o pontapé no meio da porta.

O carro parou cinquenta metros à sua frente. Um deles desceu, olhou a porta, gritou “puta que o pariu”, entrou no carro. O carro deu ré. Ele tirou o canivete na bolsa. O carro parou ao seu lado. Desceu um, e dois, e três, o último com duas barras de ferro nas mãos. Passou uma das barras para o primeiro. Agora é corro ou morro. Ele correu o máximo que pode. Os gritos se aproximaram, veio a dor aguda na cabeça e a luz se apagou. Para sempre.

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Sobre Rogério Guimarães

Rogério Guimarães nasceu em Santo Antônio da Platina (PR). Gosta de desenhar e tocar violão. Vegetariano não praticante, curte esportes radicais como yoga e tai chi chuan.Busca inspiração para escrever em Pasárgada, Shambhala e na paisagem cosmopaulistana. Participou da antologia de contos Abigail, publicada pela Editora Terracota, e do ebook Geração em 140 Caracteres, editada pela Geração Editorial. Seus próximos livros serão lançados em 2012, se o mundo não acabar.

  1. weber sauerbronn

    Oi Rogério, tudo bem?
    A sensação de confusão está ótima e o final contundente…
    Muito bom, parabéns!
    Um abraço.

  2. Um belo ângulo
    Ângulo agudo
    Ângulo replementar

  3. Rogério que história! Me vi lá, acompanhando o protagonista. Senti sua indignação, sua raiva, sua escuridão. Parabéns!

  4. Caramba… Quem te viu, quem te vê!
    Grande Rogério, grande mira!

  5. Um conto e realidade de muitos. Parabéns!

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