A centenária

Hilda – Duane Bryers

Célia parou de fumar aos sessenta. Reduziu o vinho para a quantidade recomendada no Fantástico. Reformulou o cardápio da família, o que incluía uma velha promessa: nunca mais torresmo! Passou a fazer reposição hormonal e caminhadas, sob orientação do ortomolecular. Célia agora andava com  protetor solar na bolsa e pesquisava marcas aprovadas pelo Adolfo Lutz. Que perigo – pensava enquanto lia alguma matéria na revista – uma vida inteira exposta ao sol, dando comida de gente pra cachorro… Benção  é viver nessa época de avanço na medicina – tinha ouvido falar até em nanotecnologia. Célia aos poucos convenceu a vizinha da frente, Dona Judite, sobre os benefícios de uma vida saudável. Começou com suco de clorofila e um pote de ração humana congelada. Controle  de hipertensão arterial, melhor condicionamento cardiovascular, redução de colesterol ruim, eram palavras de ordem. Tão elegantes e complicadas que Dona Judite sucumbiu. Vou amanhã com você nessa tal de caminhada. Saíram às sete da última quinta, dia quinze. Apesar de morar na rua de trás, Dona Judite nunca tinha entrado no Parque Celso Daniel. Gostava muito do prefeito morto. Nem acreditou quando viu o homem todo furado de bala no Jornal Nacional, numa estradinha de terra em Juquitiba. Relembrava fatos quando Célia, que caminhava alguns metros adiante, foi atingida por uma árvore tombada. Na verdade era o galho de uma árvore tombada. Centenária. Patrimônio histórico. Foi muito rápido. Uma figueira. Em cima da Célia. Morreu na hora, coitada. Deu no jornal. Dona Judite não se conformava. Célia era muito vaidosa, não gostaria das manchetes: Galho de árvore centenária despenca e mata idosa em parque. Pior é que as pessoas se confundiam, sabe como é boato. No enterro apareceram curiosos para ver a centenária que morreu atingida por uma árvore. Gente que não tinha tempo para ler direito uma notícia, mas a tarde ociosa para acompanhar o cortejo.

Dona Judite começou a fumar no dia seguinte à morte de Célia, aos sessenta e nove. Mandou o menino buscar dois maços de L&M na padaria, e incluiu torresmo no cardápio da semana.

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  1. Dê como sempre seus textos são irreverentes, hilários mas verdadeiros. Adorei!

  2. naneteneves

    Gosto da ironia e do texto enxutinho. Afinal, quem manda seguir o doutor Drausio? rs

  3. Texto muito divertido. A linguagem é exata. Parabéns!!

  4. Valeu Dr. Roger, um beijão!

  5. Aline Viana

    Como diz o ditado, a melhor solução é “carpe diem”, rsrsrs

  6. José Carlos Malafaia

    Bela desculpa pra se refestelar numa esteira e ouvir Chopin. Bjs.

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