Mãe de dois

Foto: Larissa Coutinho

Sua escolha não aparentava ser a pior, tampouco a que sempre sonhara. Serviria para colocar a comida na mesa, para não deixar faltar nada aos gêmeos e bastava. Como mãe, Anyiê teve o sonho de dar a seu filho homem o nome do pai, mas o destino se encarregou de impedi-la. Amava os pequenos, Eliah e Mahnã, mas não fazia esforço para lembrar-se do porque vieram ao mundo.

Eliah adorava vestir os saltos da mãe, usar seus batons, enrolar-se nos lenços de seda. Mahnã, silencioso, apenas olhava enquanto as duas se enfeitavam. Não fazia seu gosto, mesmo ainda às voltas do seu quinto ano de vida.

“Você fica feia, mamãe”, e Anyiê não demorava a arrancar as pinturas todas.

Até a semana anterior, a vizinha ajudava com as crianças e preparava o jantar para quatro. Não deu pra continuar. Aniyê mesma quase não comia, uma das refeições era o que pagava pela quitinete ao seu Josias, viúvo, a quem às vezes prestava outros tipos de serviços para complementar o valor do aluguel.

Mas agora seria diferente, o dinheiro estava cada vez mais curto e os dois já podiam cuidar de si mesmos. O cheiro de comida subia junto com o sol, quando Anyiê voltava do trabalho. Eliah enjoava com o cheiro e quase sempre vomitava com a merenda rala da escola. Mahnã tentava não se importar.

Em Delhi o movimento era grande, principalmente de turistas, o que rendia à Anyiê um lucro bom em épocas de temporada. Aprendeu a cobrar mais quando também fazia o serviço de guia turístico e a vantagem era que sempre tinha um restaurante chique no jantar.

Para ter um dia no mínimo agradável, levava os turistas onde mais gostava e assim fingia estar apenas com um colega ou um primo distante. Os templos eram os preferidos: passava primeiro pela Praça Durbar e Hanuman Dhoka para chegar a Mahadev e Parvati. E quando o cliente parecia ter uma boa grana tentava convencê-lo de visitar o Taj Mahal.

Anyiê, sempre que se deparava com a maior prova de amor, imaginava quem a faria feliz. “L’amour!”, pensava ela, e então voltava à realidade e prendia seus sonhos somente a este pensamento. Nunca havia sido amada e também não sofria de pretensões, se sustentava por olhar Mahnã e Eliah. Os olhos que brilhavam era o que dava forças.

Quando era hora de voltar para casa, Anyiê cruzava o mercado, ainda em montagem na rua, e arranjava um bocado de chá para o desjejum dos pequenos. Quando teve de dispensar a vizinha, Josias se ofereceu para ajudar com as crianças, mas Mahnã foi quem deu a ordem negativa.

O viúvo havia construído a pensão ainda noivo, seria a fonte de renda do casal. Perdera a esposa meses depois do casamento, e suas necessidades eram fora do comum, tanto pela falta de uma fêmea quanto pela tristeza da saudade.

Aniyê sabia ser uma mulher diferente, que não se submeteria às ordens de um homem apenas por ser esposa. Aprendeu isso num livro que lera quando criança, presente que uma professora havia dado a ela em segredo. Somente quando cresceu e descobriu estar prometida para Tayimo é que entendeu os motivos do segredo.

Taiymo era um bom rapaz e não se zangou quando Anyiê fugiu. Ela não queria ser igual à sua mãe, sempre escondida, rechaçada, apanhando. A glória foi Goughan, o filho homem, segundo na ordem. No parto dos últimos filhos, os gêmeos, morreram os três: um por fome, outro sufocado com o cordão umbilical e a mãe por infecção. Anyiê não queria casar.

Recebera duas propostas para vender Mahnã, enquanto era bebê. Uma mãe desesperada para não ser apedrejada e também um homem, para não perder a herança do avô. Não aceitou.

Suraj é primo em segundo grau de Anyiê, sua prometida havia morrido há cinco anos. Mora no sul da Índia, cidade quase deserta e desconhecida pelas pessoas da metrópole. Sua obrigação é retornar à casa dos pais, desde que com filhos. Ajudara Anyiê quando os gêmeos nasceram e agora é o momento de ser retribuído. Ela sabe que ele não faria disso uma forma de se aproveitar. Confia nele.

Faltam poucos dias, malas prontas e ela sabe dever atender a todos os pedidos que lhe serão feitos. Isso não chateia Mahnã. Ele gosta de Suraj, o que dá a Anyiê a tranquilidade de seguir adiante. Mas isso não durará muito tempo e a moça bem que sabe seu futuro: se apaixonará por ele, quando menos esperar.

(Texto revisado, originalmente publicado no blog Dona da janela.)
Anúncios

Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta.

  1. Querida Beatriz!!

    Muito bom!!!

  2. Gosto das histórias do oriente. Não dos mitos religiosos e sim dos conflitos e injustiças de suas sociedades. Como no “Caçador de Pipas” e “A Cidade do sol”. Parabéns.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: