Bom dia, eu queria falar com…

A última barreira: a secretária.  A mulher atende ao telefone e fará tudo para que você não chegue a falar com você quer. Quem é? De onde? Poderia me adiantar o assunto?

Tudo subterfúgios. Experimente a terceira opção, adiantar o assunto. Logicamente, ela não sabe do que se trata. A secretária é o simulacro humano da musiquinha. Aquela que as operadoras de telefone colocam para ver quem é o cliente que bate o recorde de ouvi-la.

Voltemos à secretária. Ela ouvirá o seu caso. Mas não é com ela. Não pode ajudar. A pessoa que você procura está em outra ligação. Ela vai passar o recado. Novo subterfúgio. Na mesa das secretárias só tem caderno de desenho, neles é proibido anotar qualquer coisa com letras e números. Ela não conhece a sua cara, por isso não poderá fazer nem  mesmo um retrato falado. Resultado: terá que ligar novamente daqui a dez minutos.

Na segunda ligação, ela não se lembrará de você. Perguntará com afetada inocência: fulano de onde? Você explica. O seu nome, mesmo? Você repete. É com um “n” ou dois? Diga que é com três e ela sequer se surpreenderá. Será que está mesmo ouvindo ou é como os psicanalistas que só despertam do transe na hora em que a sessão acaba?

Nova tentativa. A pessoa está em reunião. Não, ela não sabe quando irá sair. Mas dará o seu recado, qual é o seu nome mesmo? Ah, foi você quem ligou agora há pouco? Sim, sim, ela fará a gentileza de dizer que você telefonou.

Acredite e é provável que Jesus volte antes que retornem sua chamada. Pode acender vela, lançar macumba. A secretária é imune. Viverá eras, passará por quantos chefes vierem. Impassível como a cafeteira e as cadeiras. Talvez fique um pouco rouca, mas nada que a impeça de bloquear a comunicação.

O seu caso é urgente. Decide ir lá e falar pessoalmente com a pessoa. A secretária não irá se comover. Mostrará o sofá, oferecerá água e café, mas nunca a senha que lhe permite atravessar a porta de vidro atrás dela. Haverá entra e sai. Com sorte passará a pessoa que lhe interessa. Esta lhe apontará a secretária:  “Izilda, veja um horário para esse senhor, por favor”. E lá ficará você, passando fome e juntando poeira.

Sua única opção será mudar para o outro lado do balcão. E, se for o caso, de sexo. Tonar-se uma secretária. Conseguirá então falar com quem você quiser. À vontade. Não há limites para elas. Mas, terá que adotar um codinome. Por segurança, nenhuma delas revela à pessoa do outro lado da linha seu nome real. Marlene? Cristiane? Rosângela? Tanto faz, desde que a missão da secretária seja cumprida: manter livre a linha do chefe, vai que a presidenta o procure? De secretária para secretária os trâmites para essa comunicação serão realizados com a devida presteza. Dentro desse plano maior, empatar a sua vida é mera consequência.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Henrique Fendrich

    Muito legal. Eu um dia tentei entrevistar o Jaime Lerner, mas ele nunca estava disponível, e por isso estive praticamente entrevistando sua secretária. Estava começando a rolar um clima. =)

    • Aline Viana

      Que bom que vc gostou!
      Acho que essa sua história com a secretária do Jaime Lerner renderia uma crônica ótima! 😛

  2. Fábio C. Martins

    Poxa, queria ver uma conversa entre as duas secretárias.
    Seria BEM interessante de acompanhar.

  3. Fábio C. Martins

    Gostei bastante, mas você me deixou curioso em saber como seria uma conversa entre as duas secretárias.

  4. Interessante a situação escolhida e como você a explora, Aline. Muito bacana.

  5. Sabe, eu preciso admitir que alguns pontos são de fato verídicos. Mas, entenda, é tudo pelo bem do chefe!!! rssssss

    • Aline Viana

      rsrsrs Sempre é bom ouvir o outro lado, né, Bia? Tudo bem que eu senti um pouco de corporativismo de classe nesse seu comentário, mas vamos deixar pra lá, hehehehe 😛

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