Rotina

Pintura de Renoir

         A mão esquerda aos poucos se aproxima do criado-mudo. Às 5h, no primeiro toque do rádio-relógio, ela o desliga. Não quer que o marido nem que os dois filhos acordem tão cedo. Enquanto toma banho, a cafeteira prepara o café e o micro-ondas ferve o leite. Roupa escolhida na noite anterior. Sai do banheiro vestida para trabalhar. A caneca de café com leite é acompanhada por quatro fatias de pão de forma. Volta ao banheiro. Escova os dentes. A maquiagem fica um tom mais castanho do que a pele.
         Às 5h45 espera o elevador. Às 6h aguarda o ônibus. Às 6h21 um lotação para. Assim como os outros cinco que não pararam, este também está lotado. Mas sempre cabem mais oito. O rapaz ruivo entra após ela.
         No metrô tem fila demorada para passar pela catraca. São Paulo me alimenta. São Paulo me devora. Ela imagina um matadouro. Animais esperando pacientemente serem sacrificados. O que fariam se soubessem que iriam morrer? Se pergunta. Nada! Se responde. Sabemos que vamos morrer e continuamos serenos na fila.
         Às 8h já colocou a digital no relógio de ponto. Sai do trabalho às 17h30. Pouco antes das 20h regressa ao lar.
         Deitado no sofá, o marido vê novela. As crianças brincam pelo apartamento. Ela beija cada um. Em direção à cozinha, passa pelo marido e pergunta se conseguiu o emprego. Ele reclama: as dores na coluna estão insuportáveis.
         Tira a carne da geladeira. Deixa descongelar. Prepara o arroz, a salada, o feijão ainda dá para a janta. Tempera a carne. Assa na churrasqueira elétrica. Suco de laranja para não ficarem gripados com a frente fria. Pega o mais novo no colo. Leva à mesa. O mais velho repete duas vezes.
         Ela ajuda na lição do mais velho. Brinca com o mais novo. Assiste ao seu seriado favorito. Por volta das 23h30, após lavar a louça e escolher a roupa do dia seguinte, vai dormir.
         Às 5h, no primeiro toque do rádio-relógio, desliga. O rapaz ruivo encosta. 8h11 bate o ponto. Meio-dia termina de diagramar o catálogo. Às 19h40 entra no apartamento.
         O marido, deitado no sofá, reclama do salário do emprego indicado, das costas, do final da novela. O pequeno quer sua atenção. O maior está com fome. O feijão vai demorar. Um descuido: o menor entra no banheiro, escorrega e bate a cabeça no chão. Correm para colocar gelo. Não pode deixar dormir. Passa a pilha de roupas. À meia-noite e meia capota na cama.
         Às 5h, no primeiro toque do rádio-relógio. Antes de encerrar o expediente envia a prova de cor para a gráfica. O marido aguarda a nova novela. Escolhe roupa escura.
         Às 5h, no primeiro toque. Não entende o que a revisora anotou. As dores nas costas continuam insuportáveis. O feijão azedou.
         Às 5h, no primeiro. A febre do maior não passa.
         Às 5h. Segue para o matadouro.

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Querido Gláuber

    … todo dia ela faz tudo sempre igual ….

    Muito bom!!!!

  2. Gláuber essa rotina conheço muito bem. Não tenho filhos nem marido folgado mas a rotina é praticamente a mesma. Todo santo dia! Maravilha de texto!

  3. Gostei da levada… texto de Glauber!
    Desespero que vai tomando conta até da gente! Quando chega o final de semana??

  4. Muito bacana, Gláuber. Gostei das elipses, acelerando o final até o ótimo desfecho.

  5. Daniel Lopes

    Esse eu já conhecia, Glaúber, foi bom reler. O desfecho é danado de bom. abração.

  6. Renata Calazans

    Muito bom Glauber,
    O Melhor é esse reconhecimento, é o que fortalece para continuarmos essa batalha que muitas vezes, chamamos de rotina.

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