Minha burca e eu

Foto de Sandra Regina Santos

Uma burca, pelo amor de Deus. É o meu mais profundo desejo depois de sucessivas e frustradas tentativas de fechar o zíper de três calças e os botões de quatro blusas. Botões, aliás, que de jeito algum chegariam a inspirar Roberto Carlos.

Tem dias, quase todos, diga-se de passagem, que são assim: olho no espelho e tudo o que mais quero é uma burca. Só uma pretinha e básica burca para me cobrir toda na hora de sair de casa.

Abomino qualquer forma de opressão, quer por meio de decretos, quer por meio de roupas, atitudes, palavras, abraços e beijo. Mas pense bem antes de qualquer julgamento. A burca não aperta, não marca e ainda esconde toda e qualquer imperfeição da ponta do dedão até o mais novo fio de cabelo.

Não é que falta força de vontade para entrar naquela calça que não fecha. É que tenho uma vontade meio, digamos, um tanto bipolar. Tenho uma vontade tipo Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Na frente do espelho ela é desesperadamente uma, mas se transforma numa louca voraz diante de qualquer bombonzinho ou pedaço de toucinho. Sim, toucinho, cheio de gordura, e não esqueça o limãozinho, por favor.

Dizem que o importante é a beleza interior. Mas convenhamos, nunca vi ninguém ser capa da Vogue, ser Miss Universo ou diva do cinema só porque é linda por dentro. Que o diga a Madre Tereza de Calcutá. Até a Beth, aquela mesma, a feia da novela, teve que ficar linda no final. Moral da história: final feliz, meu bem, só para as bonitas, magras, sem aparelhos nos dentes e vê se não esquece de tirar os óculos, viu?

Nas bancas de revista, no cinema, na televisão, nas vitrines de shoppings, enfim, por todos os lados que olho, as imagens trazem a impressão que há alguma coisa não muito certa com o que projeto no espelho. E não adianta falar que a beleza das modelos é a custa de photoshop ou que aquilo que vale é a beleza interior. Outro dia, perguntei curiosa para o filho de três anos de um amigo porque ele achou gostou da bruxinha e achou feia a fadinha do livro. O menino não vacilou. Respondeu na lata: porque a fada é gorda.

E não é que não tentei ter aquele corpinho que é o desejo de consumo de todo bom e belo biquíni. E como tentei. Aliás, tento todo dia. Mas há que ser implacável, incomplacente, inquebrantável nessa missão. Não se desviar nem para a esquerda, nem para a direita e muito menos para aquele brigadeiro que não para de se exibir todo para você. E assim cada um sofre o sofrimento que lhe aparece ou o que lhe melhor apetece. Então, por favor, uma burca, pelo amor de Deus, e bem rápido, que já estou atrasada.

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Sobre sandrareginasantos

Nasceu em Londrina

  1. … e coloridas para a primavera verão …

    Gostei ….

  2. Sandra sua reflexão é hilária! Sei de muitas mulheres que se encontram na mesma posição. Não é nada fácil ser uma mulher feliz diante de padrões de beleza totalmente avesso à nossa natureza. Mesmo sendo magra, as vezes olho-me no espelho e também quero além da burca, um véu que esconda esse meu rebelde cabelo que teima em ter vontade própria. Bom demais!

  3. Aline Viana

    Ótemo! rsrsrs
    Ainda mais pra mim que estou numa fase super interessada nos paradoxos e paralelos entre ocidente e Islã.
    Bjs

  4. Sandra, só você mesmo. Com esse título, eu não imaginava como esse texto iria continuar. Parabéns!!

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