Hawk-eye



Devia existir um tira-teima pra vida real quando tudo o que se viveu durante dois  meses se transforma em uma edição melhores momentos espezinhando diariamente seu cérebro, haviam suas tentativas bem-sucedidas de cozinhar enquanto teimava um beijo em minha voz abafada pelo riso, como não gargalhar assistindo o catálogo de imitações, Lula, Silvio Santos, Pelé, Roberto Carlos, depois o dia em que passamos horas naquele japonês, você sentenciando que família devia ser questão de livre-arbítrio, era péssimo negócio simplesmente herdá-la, lembrou a mãe que escolheu o mundo deixando a babagem-filho-pequenos-mala-pesada para trás, o pai mais desconhecido que vida após a morte, a avó, versão amorosa da tradição-família-propriedade, única aliada no mundo, e tudo o que eu queria, F., não era beijar a ponta de seus dedos e prometer que cuidaria de você para sempre, era apresentar a carteirinha de sócio para você me reconhecer como igual, me amar da forma que cães e cadelas se procuram e se encontram, por morfologia, comportamento, cheiro.

Em seguida eram os takes “você discursando Pessoa” – nunca conheci quem tivesse levado porrada/todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo – “você empostando Maiakóvski” – nas calçadas pisadas/de minha alma/passadas de loucos estalam/calcâneo de frases ásperas – você me provocando com algum escritor, você falando nas entrelinhas citando outro, você e os livros, a combinação tinha ultrapassado a importância da dupla café e cigarro em minha vida, e eu adorava discordar da tua boca impregnada de Pound, Drummond e Rilke, a guerra de letras e palavras encobrindo nosso desejo não-declarado de viver estes momentos num eterno Dia da Marmota.

Depois vinham pernas e braços que buscavam minha respiração antes de adormecer, F., e eu me sentia meio barco à deriva, meio porto, tua vontade de proteção ancorando meu desasossego, meu tesão servindo de cais para tua loucura, e sempre sobrava espaço e cobertor pra lembrar que não existe cama pequena quando a cumplicidade do corpo é fértil oceano.

Por tudo isso, F., pela coleção de imagens sobrepostas sobre a minha sensatez, por teu sorriso que estragava minha vontade de voltar pra casa após devorarmos  o fim de semana inteiro, é que me vejo pensando em aderir ao tira-teima, olhos de águia como se diz na gringa, perscrutar milimetricamente cada suspiro, mijada com a porta aberta, frase antes de dormir, beijo boas-vindas no hall de entrada, espezinhar cada centímetro da nossa curta existência amorosa para entender se vale a pena fazer compostagem do passado.

Porque saímos disso tudo sem nos despedir, F., sem disputa por controle remoto, patrimônio ou honra, sobrando apenas o “you never knew what I loved in you, I don’t know what you loved in me” tatuado bem grande na edição melhores momentos de você, o trecho trilha sonora para acompanhar minha chegada em casa sem teu cheiro rolando em minha língua, eu sempre adiando a decisão, a dúvida erva-daninha, saber se retoco o sentimento-música-Jackson -Browne com o tatuador, ou simplesmente arrisco, me jogo, me perco, telefono para você resolver.

Imagem: Hunchback in Every Pot

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Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Conquistamos assim o “eterno enquanto lembro”

    Gostei!!

  2. Luciano

    Hehehe… Essa é a Lú Setúbal! Parabéns!!!

  3. A linguagem é muito envolvente. A sucessão, o acúmulo de imagens concretas tornam o relacionamento muito real. Belo texto, Luciana.

  4. naneteneves

    Gosto dessa narradora engasgada, do tipo sem ponto. Difícil fazer bem narrativas sem intercolutor, mas você aqui sobrou! Parabéns.

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