Íris

Foto de Iozio Augusto

Ele a pega com a mão em seu bolso. Agarra o pulso, faz um pequeno passo de dança no apertado metrô e a puxa.

— Tranquila.

Ela obedece.

Não devia ter mais do que catorze.

O esfregar da batata da perna o deixa intumescido.

Ele sorri

Ela treme.

— Iris.

Descem na estação seguinte . Sobem enlaçados a escada rolante.

— Gosta de alcachofra, minha flor?

Passeiam pelos cascalhos das ruas.

Sentem o vento árido.

Entram em uma lanchonete

— O de sempre, doutor? — … e vem um café de coador grande e um prato de brócolis, alho e óleo — E o que o broto quer?

— Iris, experimente as sementes de girassol. É muito bom!!

— Essa é para criar raízes, doutor?

— Apenas outro botão.

Andam atados. Ele fala de bonsai, fungo, pássaros e estrume

— Onde?

— Para o meu jardim.

Chegando, ele mostra a estufa. Ela vê outras flores.

Na luz: a Acácia, Dália e a Margarida

No escuro: Magnólia, Rosa e Camélia.

Ela se rende.

Teve alguns dias de aclimatação.

Em uma tarde: ele rega.

Em outra: Aduba

Em outra: rega e aduba

Em outra: aduba e rega.

Descansa.

Recomeça mas ela não vinga.

Ele poda.

(da Coletânea: Santas, flores e minha tia)

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. Eu ainda tenho aquela visão… Impossível tirá-la de mim!
    Mas continuo adorando!

  2. Lena

    É um texto duramente poético, me impressionou muito.

  3. Realmente, “Sementes de girassol” são uma delícia. E às vezes é preciso podar. `Ótimo texto!

  4. Ah Plinio essa sua visão poética nos leva a um mundo único. Maravilha de texto!

  5. Sonya Prazeres

    muito bonito seu texto: IRIS!
    quero ser sua amiga…

  6. Ótimo texto, Plinio. O começo cinematográfico, com imagens e diálogos, desperta a curiosidade. Esse final poético, com a linguagem do jardineiro é demais!

  7. José Carlos Malafaia

    E se cheira na ponta do cílio o desejo. Belo, meu caro. Abraços.

  8. Rega, aduba e poda. Esse é o ciclo das “apenas botões”, tristemente poético como aqui. Lindamente poético aliás

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