Notícia ruim

Diante daquela notícia Bárbara ficou estática. Já havia se passado vinte minutos e ela continuava ali, parada de frente à tela do computador. As palavras, assim como ela também permaneciam paradas. Inertes. Mas o que elas representavam movia-se quente feito lava no interior da terra. Aos poucos uma sensação estranha tomou conta dela. Seus olhos que até então permaneciam parados começaram a piscar sem parar.

Levantou-se.

Foi até a janela de seu escritório. Olhou para fora e sem querer visualizou a janela do prédio vizinho. Distraidamente seu olhar capturou uma cena ao qual não estava preparada.

Um homem nu acabara de sair do banheiro com uma toalha nas mãos a enxugar seu dorso. Em seguida, outro homem saiu também do banho e, pegando a toalha das mãos do primeiro homem, passou a secá-lo de forma carinhosa. Olho no olho ambos nem imaginavam que outros olhos os admiravam. Por breve instante Bárbara esqueceu por completo daquilo que acabara de ler e que mudaria radicalmente sua vida.
Mas esse recorte do cotidiano durou bem pouco. Logo se lembrou do que havia lido e toda aquela inquietação ressurgiu. O recinto ficou pesado.
Precisava sair dali.
Voltou à sua mesa e mais uma vez leu aquele e-mail. Passou os olhos já marejados por cada palavra escrita na mensagem. Expressou em voz quase inaudita “Não pode ser! Não pode ser! Só pode ser uma brincadeira de mau gosto!”…

Não. Não é brincadeira. Já havia passado por algo semelhante, mas preferiu fingir que nada daquilo tinha acontecido. Aos poucos sua vida foi voltando à normalidade e até já tinha se esquecido. Mas agora…

Durante anos tentou fingir ser feliz. Que estava bem, que era realizada em sua vida certinha, organizada, cor-de-rosa.
No entanto, bem lá nas profundezas de sua consciência sabia que não era bem assim. Mais dia, menos dia a verdade se mostraria nua, dura, crua.
Como agora.
Não podia mais fingir e ignorar a realidade. Tomada de uma decisão levanta, pega seu casaco, sua bolsa e abrindo a última gaveta de sua mesa que sempre mantinha trancada pega uma pistola. Verifica se está carregada.

Três balas. É o suficiente.
Sai apressada passando por sua secretária que trazia nas mãos uma série de documentos para ela assinar.

Agora não tenho tempo. Deixe em cima de minha mesa que amanhã logo cedo leio e assino todos.

Jussara, a secretária, sem entender nada daquela afobação, entra na sala e ajeitando a papelada repousa todos sobre a mesa.
Ah! Mas é mesmo uma distraída essa minha chefe. Além de esquecer ligado o computador ainda deixa na tela seu e-mail particular aberto. Ainda bem que fui eu que entrei aqui, pois se é outra mais curiosa…
Meu Deus!!!!!!!

Bárbara você não me conhece, mas sei muitas coisas sobre você. Tantas que passei a te admirar como mulher e ser humano. Sei da profissional brilhante que é, sei da mulher sensível, feminina e carinhosa que é, sei de seus planos para o futuro incluindo seu casamento com o Gustavo. Mas devo alertá-la que esse homem não te merece. Da mesma forma que não merece o amor e admiração de nenhuma outra mulher. Muito pelo contrário. Merece o total desprezo de todas, pois além de mentiroso, é covarde, traidor e ainda por cima engravidou uma mulher e não quer assumir sua responsabilidade diante dessa paternidade inesperada. Ele te trai. Sempre te traiu. É o tipo de homem que jamais irá se contentar com uma única mulher. Quer todas pelo simples capricho de seduzir, destruir suas defesas e depois descartar feito roupa velha. Já fez isso com várias. Inclusive comigo. Diante dessa sua atitude abominável, decidi contratar um detetive particular e hoje tenho um verdadeiro dossiê desse “cavalheiro” e se desejar, deixo à sua disposição. Não estou te passando tais informações com o intuito de te destruir. Muito pelo contrário. Por saber o quanto é correta, honesta, boa gente, me vi na obrigação de alertá-la para que não comprometa sua vida, seu futuro se casando com esse crápula. Volto a te dizer: ele não te merece! Desculpe mais uma vez te trazer uma notícia tão ruim. Mas antes agora do que depois de casada. Solidarizo-me com você.
Abraço,
Renate Mourão

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos, Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participou das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Faz parte da coletânea Descontos de fadas, da Alink Editora. Lançou seus contos Recortes de vidas e suas crônicas Receituário de uma expectadora, ambos pela Scenarium. Colaborou no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. “Três balas. É o suficiente.” Coitado, não merece mais de três balas. Aos poucos a história foi me prendendo. Linha após linha. Gostei, Roseli.

  2. Marilda Mitsui

    Rose, muito legal!!! Conseguiu prender a atenção, gostei muito!!! Bjs

  3. Mais um texto inteligente,intrigante e que tem o poder de prender a atenção,sinto que a cada novo tema seu estilo se consolida,parabéns,continuarei te acompanhando.

  4. Gostei, Roseli. Direto como bala perdida que sempre encontra um alvo inocente.
    Franz

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