Os avôs da Vitória

Galeria de Abriuamadre - Artigos para Bebê

Foto: Galeria de Abriuamadre – Artigos para Bebê

Entro no carro.

Ele sorri. Pede desculpas por estar atrasado. Trânsito!! Está feliz? Claro!!! A minha primeira neta! Nossa primeira neta, ele me corrige.

Reconta que desde que a esposa morreu, há quatro anos, submergiu no trabalho. Somente levantou a cabeça quando soube que a única filha, minha nora, ficou grávida, uma gravidez de risco.

Mudou para o mesmo prédio do casal no litoral, acompanhou todos os exames médicos, foi um ombro amigo para o meu filho, o genro dele, praticamente fez o parto da minha netinha e veio me buscar. Agradeço.

Estou enamorado.

A minha mulher iria adorar conhecer a netinha! E a outra avó dela?

Relato que foi uma aventura de uma noite.

Fui pego no fracasso e oito meses e meio depois o genro dele, meu filho, me foi entregue. Criei com a ajuda de amigos.

Estou apaixonado.

Então esta você vai gostar!!! É do nosso tempo!! Ouvimos o “My Generation” do The Who.

E não morremos antes de envelhecer. De ter netos, disse ele.

Todo tempo teve o meu desejar.

Cantamos juntos “Who are you”.  Vamos lá, me diga, quem é você? Quem é você? Por que eu realmente quero saber quem é você?

*****

Fomos ao hospital. Vi pela primeira vez a Vitória, a mais linda de todas!! A minha neta!! Nossa neta!!

Acompanhamos a minha nora para casa.

Primeiro banho eu dou e o sogro do meu filho me ajuda. Vitória parece uma bola pulando entre o meu colo e o dele. Pula até dormir.

Minha alma deseja a língua dele.

Jantamos.

Conversamos sobre o futuro da Vitória. De princesa ou médica. De modelo ou cantora. De bela e uma pessoa feliz.

Ele me convoca para ficar no apartamento de dele, no mesmo andar. Fazemos assim: os avôs de um lado e os pais de outro.

Ali converso para arpoá-lo.

Esbarramos muitas vezes. Toques, apertos, encontros, estou excitado, ele percebe e diz que está com calor.

Prepara a minha cama e vai tomar um banho.

Deitado, fico apenas coberto com um fino lençol. Antecipando e não desvendando.

Vem com uma colcha e vai dormir sem me olhar

Masturbo pelo pai de minha nora.

*****

Não me deixam voltar. Não quero ir embora. Eu quero o outro avô da minha neta.

Entre uma mamada e outra, fazemos uma caminhada pela praia. Alguns toques. Esquivas. Sorrisos com quintas intenções. Palavras inteiras.

Queria que ele me beijasse.

Faço o almoço e promovo leve encontro na pia. Discreto. Intimo

Faz a Vitória arrotar e suspiro em sua nuca

Arrepios.

Cuido da cozinha e ele troca as fraldas.

Ela dorme sob a nossa vigília.

Vou atrás dele na praia. O fisgo pelo olhar. Ele se debate. Enfrento. Ele está com sede. Quero o seu abraço. Nada diz. Pego a sua mão. Fica vermelho. Declaro. Abala. Reforço. Vai correr e vou comprar fraldas noturnas.

*****

Jantar. Cozinho somente alimentos que não provocassem cólicas na minha netinha. E o meu pai? Sei não

Dou outro banho, troco fraldas e Vitória dorme. E o outro avô? Não sei.

Confecciono um móbile de origami. E o meu sogro? Sei não.

*****

Está sentado na sala escura.

Vamos conversar? Sim. Não gosto disto. Tá. Não mesmo. Tá. Senta mais para lá. Tá. Sei lá se quero Tá. Não sei se não quero Tá. Sempre fui um homem! Sempre sou um homem. Não sei … Eu sei. Sei não. Sei. Não. Tá.

Levanto.

It’s now or never

Levanta e me beija profundamente.

*****

Bem depois, entre vigorosos beijos e rendido nos meus braços.

O que somos? Os avôs da Vitória.

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. Aê, este é o Plínio! Sempre surpreendendo com a sua literatura. Parabéns.

  2. Enredo inusitado! Gostei!!!

  3. Plinio sempre nos surpreendendo com seus enredos. Nada de lugar comum. Gosto disso amigo. Amei o final: o que somos? os avôs da Vitória. Valeu! Fala sério amigo. Dá um ótimo roteiro de um curta. Pensa nisso. Bj

  4. Aline Viana

    Como a Roseli, também adorei o final.
    Plínio, seus textos já nascem clássicos!

    Bjs

  5. Grande Plínio, sempre surpreendendo. Um abraço.

  6. Lena

    Grande Plínio, nunca decepciona – sempre MARAVILHOSO!!

  7. Oswaldo Leandro

    Muito bom !! Ainda mais quando a paixão está presente.
    um Abraço,

  8. naneteneves

    Paixão é paixão, quando vem é assim, incontrolável, não respeita parentesco e nem gênero. Mas a forma como essa história nos é contada é que faz dela literatura em alto grau.

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