Melanogaster

Foto:  Igor Schutz

        Eu queria ser uma abelha pra pousar na tua flor, ô frase-gruda-meleca-no-ouvido, me lembrava da condição de inseto, era salompas em meu espírito. Incomodativa, insignificante, pequena, assim me sentia quando você apontava as condições meterológicas no Zimbábue como ideais para o resgate da economia americana, exigia um Quinta do Valado para acompanhar o arroz de pato ou enumerava os motivos pelos quais morarem Nova Iorquenão valia a pena, eu não conseguindo enxertar em nossas conversas nenhum parágrafo do tratado sobre a relação  cool cuisine & fast fashion que você indicou ao Sèrge e que eu li escondida, o calhamaço xerocado no porta-luva, o trânsito única testemunha da minha devoção, cada parágrafo deglutido com pitadas de semáforo.

Às vezes me imaginava uma mosquinha, “mosca-de-fruta”, corrigiria você com sua exatidão enervante, falo como eu quero, me imaginava uma MOS-QUI-NHA entrando em sua vida, aquela feita de almoços com o pessoal do conglomerado de moda, viagens para negociar contratos na França, um pulo frequente no Marrocos. Istambul acomodava amizades feitas na Espanha, explicava você para o meu olhar pontilhado de ciúmes, teria você uma mulher com gosto de sumak, cardamono, açafrão, a dúvida faiscava e morria, fósforo apagado com saliva.

Então eu me pegava querendo viver essa vida exótica de andarilho mundial nem que fosse por uma fresta no dia, sentir o expresso curto batendo na língua em um café italiano, despertar nas cores vermelhas da Andaluzia, atravessar o silêncio de uma Autobahn, e  assim me transformar em tua religião, que é percorrer o mundo como quem brinca no quintal da infância, tão distante do tédio casa-trabalho que eu enfrentava todos os dias. Assim você me amaria mais, me admiraria mais, e eu não me sentiria a adolescente bolsista de colégio particular, sempre perdendo na balança das férias mais interessantes, da família de conta bancária mais obesa, do luxo como prática de vida.

Não sei quando aconteceu, não houve dia circulado no calendário, nem precisão de mês ou horário, mas do simples imaginar fui empossada na condição de mosca em sua vida. Cada palavra ou riso meu passou a inseto miúdo importunando seu campo de visão, o aroma do seu desdém  apodrecendo o café da manhã que acordava nossos sábados, meus comentários no jantar com amigos salpicados com tua rispidez, tudo o que me definia açoitado com ironia miúda.

Não passaram anos, foram apenas dias, talvez uns 60, para você perceber que paixão é miopia instrumental, dessas herdada pelo uso do microscópio, bastando mudar de profissão para ela desaparecer lentamente, remédio conta-gotas esvaziado ao longo dos dias. Então você mudou, adotou a profissão embabascado-pela-amiga-suíça-compradora-de-produtos chineses, e me deixou voando em círculos, pequena, insignificante, incomodativa drosóphila melanogaster, de vida curta e moída, me alimentando daquilo que era nosso amor, não, sem enganos,  do MEU amor por ti,  agora em avançado estado de putrefação.

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Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Metáfora cruel de um relacionamento.

    • lsetubal

      Relacionamentos sempre são cruéis, seja numa pitadinha, seja a receita inteira. E há uma beleza nisso, não?

  2. Que belas construções, heim? “Percorrer o mundo como quem brinca no quintal da infância”. E sempre uma mosca para nos lembrar o Raulzito.

  3. Lu é impressionante como o “pé na bunda” dá boas histórias! Como essa! Parabéns pela construção e linguagem usada. Tenho me sentindo uma mosquinha ultimamente, kkk.

  4. Guria! estou assim digamos estupefada com esta construção tão única a cerca de um mal que nos açoita o cotidiano de foras!!! adorei parabéns beijos

  5. Leandra Gonçalves

    Ha! Genial como sempre. Têm moscas e moscas, né? Com certeza você é a minha preferida. Bjs.

  6. Angel

    Show Lu!! Parabéns!! Sucesso sempre!! Tu mereces!! Bjão!!

  7. Fernanda Mueller

    Ai, ai…suspiros de orgulho e saudade!
    Lulu, minha amiga tão precisosa…continuas com a “mão boa”.
    Volto sempre

  8. Francine Barbosa

    Adorei! Achei muito bonito e preciso.

    “paixão é miopia instrumental”

    um beijo!
    Francine.

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