Arrumação

Tati olha seu reflexo no vidro da janela de seu quarto e pensa em seus desejos não realizados. Aos 38 anos, mulher em plena exuberância, sente-se profundamente frustrada. Enquanto a chuva desce torrencialmente lá fora, ela volta-se para seu interior e como uma faxineira, inicia a arrumação dos últimos acontecimentos em sua vida.

Amores pueris, amores fast, amores de fim de semana. Na área profissional também não estava muito bom. Pulou de emprego em emprego nos dez anos passados e mesmo hoje, trabalha numa função medíocre, numa empresa pequena obedecendo a um chefe tão medíocre quanto o resto. Não se dá com sua família. Não visita seus pais há três anos e não vê sua irmã há um ano e meio. Não têm nada em comum. São estranhos que por absoluta coincidência, caíram na mesma rede familiar. Amigos então, nem pensar. Tati não tem muita paciência com as pessoas e por outro lado, as pessoas também não têm muita tolerância com seus devaneios.

Seu mais recente relacionamento escapou feito água por entre os dedos há uma semana. Chegou de forma encantadora, passou pela fase de pura e doce sedução e num átimo de segundos evaporou feito perfume barato. Não ligou mais, não escreveu, não entrou mais no messenger…sumiu! De início Tati se desesperou. O que será que fiz de errado dessa vez? Será que fui fácil demais? Será que me mostrei casta demais? Deus! Será que tenho mal hálito e não percebi? Preciso marcar um dentista…Acho que ele deve ter me achado gorda. Ai Tati, olha só para essa imensidão de celulite! Não é a toa que ele saiu correndo e nem deu mais notícias. Está traumatizado mulher! Toma vergonha na cara e vai logo se matricular numa academia!
E esses vazinhos nas pernas! Tati suas pernas mais parecem os jardins suspensos da Babilônia! Violetas ainda por cima! Só se vê os roxinhos flutuando por toda perna!
Céus! Estou acabada enquanto mulher! O que me resta da vida para se viver?
Sentada à beira da janela observa a chuva lá fora. Carros passam espalhando água pra todo lado. Pessoas correm numa tentativa vã de escapar da chuva. Um passarinho solitário, assim como ela, se equilibra num fio de alta tensão. Parece alheio a todo aguaceiro que cai. Num café, do outro lado da rua, um jovem casal ri descontraidamente também alheio aquilo tudo.

Volta a se concentrar em si própria e, como um fio condutor de seus pensamentos, Tati passa a desfiar a manta de crochê que envolve a velha poltrona que fora um dia de sua avó Gina. Uma lembrança tão boa e doce que ela resolveu manter mesmo estando tão detonada pelo tempo. Poderia perfeitamente ter mandado forrar a velha poltrona, mas aí, não seria mais a poltrona da nona. Que saudade da vó Gina, de suas cantorias enquanto cozinhava, de suas risadas escandalosas que eram como música para a pequena Tati. De seus carinhos quando caía e se machucava…

É vó continuo me machucando e caindo sempre, mas agora não tenho mais você por perto pra me consolar. Nem isso tenho mais. Encontra-se tão envolvida nesses pequenos fiapos de lembranças quando ouve nitidamente a voz de sua nonna falando:

É figlia, o querê das veiz nos emburrece! Mai cosa fai? Trate de ser felice! E não mude nunca esse teu jeito de ser. Prima o poi troverai o coperchio dela pentola, éh?!

Com os olhos marejados Tati olha por todo o quarto. Sai. Vai para a sala, para a minúscula cozinha, banheiro e nada. Constata que se encontra totalmente sozinha. Mas aquela voz parecia tão nítida, verdadeira! Volta para o quarto e senta na poltrona encolhida e se enrola na velha manta. Uma paz acolhedora a envolve e então se conscientiza que na realidade não é sua nonna quem disse tal coisa, mas sim, sua consciência que voltou mais lúcida que nunca.

A chuva continua a cair lá fora, mas aqui dentro, a paz retornou encerrando uma batalha íntima com o sono reparador dos que venceram. Merecidamente Tati descansa com um semblante da menina que outrora foi. Se vai mudar? Quem sabe. Se vai encontrar um grande amor? Pode ser. Reatará com sua família? Ninguém pode afirmar. Fará amigos de verdade? E por que não? A vida é isso. Todas as probabilidades são possíveis.

É jogar pra ver.

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Sobre Roseli Pedroso

Roseli Pedroso nasceu em 1963, em Osasco (SP). Bacharelada em Biblioteconomia pela FESPSP, é bibliotecária escolar. Viver entre livros e palavras é sua grande paixão. Em 2011, participou pela primeira vez em uma antologia de contos, Abigail, publicada pela editora Terracota. Também participou das coletâneas Corda Bamba e Ocultos Buracos, ambas da Pastelaria Studio, de Portugal. Faz parte da coletânea Descontos de fadas, da Alink Editora. Lançou seus contos Recortes de vidas e suas crônicas Receituário de uma expectadora, ambos pela Scenarium. Colaborou no site: http://melecachiclete.blogspot.com.br/ Seus blogs: http://bibliotequiceseafins.blogspot.com http://sonhosmelodias.blogspot.com

  1. Querida Roseli!!!

    Gostei do dia de chuva…
    Do mal halíto ..
    Do será que fui fácil demais
    Do será que me mostrei casta demais

    Gostei muito do seu texto …

  2. Suas palavras são sempre um acalanto amigo Plínio. Obrigada!

  3. Quanto ainda há, no homem, que não se conhece! tati terá muitas aventuras interiores ainda, eu garanto! Um boa limpeza sempre nos leva a novas experiências, como o seu texto!
    Obrigada Roseli!

    • É Bia, o ser humano é uma caixinha de surpresas para ele mesmo. Podemos passar uma vida inteira e ainda assim, morrermos sem nos conhecer de fato. Obrigada pelo comentário. Bjs

  4. Roseli,
    Que belo tema você escolheu! E que cuidado na apresentação da personagem. Parabéns.

  5. Aline Viana

    Gostei muito disso de ela se encontrar e se permitir ser o que quiser. Sem aquelas moralices de conhecer Jesus e fazer tudo como manda o figurino.

  6. Nessa arrumação do jogo da vida, parabéns pelo texto, Roseli!

  7. Obrigada pela presença e comentário amigo. Bjs

  8. Creio que todos nós já tivemos um momento Tati desse. Muito verdadeiro! Adorei a composição, a forma, as indagações…
    Parabéns! bjs.

  9. oi gostei do seu texto e de sua maneira de narrar ! beijos

  10. Edilene Venancio Pedroso

    Texto delicado ,como você,doce e querida irmã, reinventar-se á cada dia apesar de todos os tropeços e dores e esta a graça e beleza de sermos humanos em toda nossa complexidade.bjs!

  11. Roseli, acho que quando o amor chega, a gente se entrega sem se preocupar com essas coisas como a personagem. Somente qdo o amor se vai sem explicacao, entao nos fazemos essas perguntas. Acredito que devemos fazer aquilo que o nosso coracao manda em relacao ao amor… se estamos lutando para que ele fique.

    Bjao e parabéns pleo texto.

  12. Sheila Boesel

    Oi Roseli!!!
    Arrumações levam a devaneios quase sempre…
    E, geralmente, são interrompidas por jorros de pensamentos!!!
    Personagem verossímel, história viva, gostei do final!!
    Abraço!

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