Ulisses

O generoso padre não tinha mais olhos para o Ulisses.

Foi dolorido perceber.

Ficou desolado quando não mais foi convidado para as pescarias.

Não mais as aulas de liturgias as quartas à tarde.

Não mais o acampamento na casa paroquial nas vésperas de feriados.

Nem mais recebia presentes furtivos com corações desenhados. “Tu ed io

 

O fervoroso padre tinha, agora, aqueles olhos cintilantes para um outro.

Somente era chamado para explicar os ritos aos novatos.

Explicava com inveja, raiva e tristeza.

Explicava para todos com dedicação. Menos para o agora especial. Este somente era cuidado pelo abnegado padres.

Agora devia  desenhar os corações para o mais novo. “te e lui

 

Um dia, antes da missa, Ulisses se deixou ver trocando de roupa, nu.

Deixou ver os pelos pubianos raspados. Aqueles poucos pelos que tinham provocado a náusea caridoso padre.

 

O piedoso padre riu. Riu com desdém. Riu com nojo.

Os outros riram.

Ulisses cobriu se com vergonha.

 

Muito depois, indo pedir perdão, entrou e testemunhou o misericordioso padre acariciando o rosto do mais novo.

Viu o seu carinho de depois dado para o mais novo.

Viu o seu brilho de olho no mais novo.

Viu que nem um pedaço do seu pode ser

 

Na Cidade da Devoção.

Entre uma missa e outra

Entre comprar um terço para avó e uma imagem de São Benedito para a mãe, Ulisses convidou o mais novo para um sorvete.

 

Andaram.

— Esta é muito caro!!

 

Caminharam.

— Esta não tem de limão!

 

Marcharam.

— Esta só tem de limão

 

Chegam na beira da rodovia e não havia nenhuma sorveteria.

 

O motorista do Fiat branco nem viu o que aconteceu.

(da coletânea: “Heróis, frutos e meu pai”)

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Sobre Plínio Camillo

Nasci em 26 de novembro de 1960. Aos três anos descobri que as letras tinham significados. Aos cinco, a interrogação. Aos nove, não era sintético. Aos 12, quis ser espacial. Aos 15, conquistei a exclamação. Aos 17 vi os morfemas. Aos 20 estava no palco. Aos 22 me vi como um advérbio. Aos 25 desenredei a Lingüística. Aos 27 redescobri as reticências. Aos 30, a juventude. Aos 35 recebi o maior presente: Beatriz Camillo, aquela que me trouxe a felicidade. Aos 40 desvendei uma ligeira maturidade. Aos 41 voltei para Sampa!!!. Aos 45, recebi o prazer de viver em companhia. Aos 50 anos, uso óculos até para atender telefone. Hoje: escrevo.

  1. O que o ciúme não faz? Fantástico, Plínio!!!!!!!

  2. Mais uma vez surpreendida. O que Ulisses não faria mais? É o que me pego pensando agora…

  3. Me impressionou a mudança do andamento da narrativa, com o final abrupto, amplificando a surpresa. Parabéns.

  4. uau Plínio! Texto que me pegou do início ao fim. E que fim heim? Adorei!

  5. Oswaldo Leandro

    Rápido não ?!
    Imagine o amor sem ciúmes ??

    Muito bom….
    Oswaldo

  6. Aline Viana

    Se eu já tinha medo de padre antes, imagine agora! hahahaha
    Mas gostei muito mesmo do texto, Plínio. Adoro personagens com sangue nos olhos 😛

    Bjs

  7. Lena

    Perfeito!!!

  8. Adoro teu estilo Plínio!!! E também gosto muito das tuas histórias!!! Adiante claraboy, vida longa a teu Coração Peludo!!

  9. cristian

    Plinio , gostei muito , um prazer poder trabalhar com vc no projeto circuloquadrado botecam
    Cris

  10. eu diria impactante! 😀
    avante e além!
    beijo grande

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