Estação Gentileza

Imagem: Fernanda Prevedello

O ar inteiro cantava a mesma tensão: sai da frente que eu quero passar. Era assim a chegada do trem do metrô na estação Paraíso, cada usuário um touro hipnotizado pelas portas automáticas. Quando o dique humano se rompia, os passageiros maratonistas-de-elite se apossavam de cada degrau, imprimiam o seu ritmo à corrida de vencer o topo da escada. Quase chifrados, a mochila adolescente, a velhinha que ousava estar no lugar errado e eu fomos obrigados a seguir o fluxo insano. Não havia espaço para onde se mover. Éramos um corpo gigantesco se deslocando, células seguindo um roteiro pré-determinado, angustiadas para cumprir sua tarefa. Mais alguns passos de tartaruga, outros de jabuti e estaríamos no topo, prontos para fazer a próxima conexão de metrô.

Iniciava eu uma filosofia interna sobre a relação tempo x trajeto para o curso onde me dirigia quando o olho fisga o inusitado nesses meus dois anos de São Paulo e seus metrôs: um engraxate. Sim, um engraxate, desses que não vejo próximo à Paulista, onde moro, nem no Alto de Pinheiros, onde trabalho – talvez existissem alguns pelo Centro, pelas bandas da Sé, mas como não faço dessas imediações meu mundo nada posso afirmar. Aparentava uns 11 anos, a caixa ao ombro sua mochila de madeira. Sua magreza permitia sumir e aparecer com facilidade entre a gola de um casaco escarlate, o tiozinho com ares de obesidade, a menina transformada em sacolas. Nossa, engraxates pegam metrô!, o primeiro pensamento saiu sem filtro e ricocheteou. E porque não pegariam, ora? Bastava um sapato engraxado e o dinheiro transformado em bilhete branco e azul para ele exercer seu direito de se misturar à multidão comprimida.

Avançamos lépidos por lerdos centímetros quando a procissão de ansiosos estanca. O que estaria havendo? Alguém caiu? Meu olho ultrapassou o casaco rubro: o menino engraxate estava agachado, os tornozelos nus sobressaindo no figurino de frio, eu e todas as pessoas surpreendidas pela audácia do gesto. “Ora retardar a passagem nesse horário de pico”, havia feijão a cozinhar, família esperando, filhos para se colher nas escolinhas, namorado aguardando no terminal de ônibus. O segundo pensamento sem filtro escapou e imaginou se o menino não estaria em quase genuflexão apenas para incomodar – engraxates parecem ter predileção por isso, adoram espiaçar a ordem natural das coisas.

O pensamento foi rebatido pela volta à posição natural do menino. Durante um milésimo de segundo meu olho aprisionou o cordão de prata que ele buscou no piso, metal sobressaindo na pele ameixada. Aí estava a razão, engraxates também deixam cair objetos de seus bolsos, rolam no chão como matéria caída da vida de qualquer pessoa. O revolto humano seguiu, ele também, o olhar ainda se recusando a seguir em frente, vasculhava os pés que se acotovelavam, havia indícios de algo ter sido esquecido, talvez um pendente do cordão?

Em ritmo boi manso agora subíamos as escadas, o engraxate um pouco à frente, suas passadas incorporadas ao deslizar das centenas de pessoas. Minha curiosidade ascendia com ele, principalmente quando percebi uma moça de 20 e poucos anos integrada a sua curta jornada. Quem seria? Era perceptível a diferença entre os dois, mas as classes sociais entabulavam um diálogo íntimo, típico “velhos conhecidos”.

Ao encontrar o fim da escadaria entrei na segunda temporada da relação tempo x chegada ao curso. Nesse ínfimo de segundo o engraxate e a mocinha premium escapuliram de meus olhos, dando a deixa para um pensamento diáfano, talvez a gentileza tenha sido a bailarina a acompanhar todos os movimentos do menino.

Mas foi só a trinta passos da estação, quando o chuvisco já se incorporava à alma dos pedestres, que a certeza entendeu, sim, era perfeitamente possível, na poeira cósmica que invade os metrôs, misto de chuva rançosa e pressa, a delicadeza partir de onde não se espera e sair assim, recolhendo cordões de prata do chão para devolver, intactos, às mãos de sua dona.

Anúncios

Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Marcus

    uau!!!! como é bom passar por este coletivo!!! Setúbal, se fosse 200 páginas devoraria na mesma toada que estas poucas linhas.

    • lsetubal

      Isso significa que só me falta coragem para me aventurar em um projeto literário solo. Valeu, Marcus! 🙂

  2. Muito bom!!!
    Belo olhar!!!!

  3. Adorei, Lu.
    No aguardo por outras.

  4. Bela história, e ambientação descrita com riqueza.
    Abração

  5. Aline Viana

    Nossa, Lu, gostei muito. Principalmente por esse final misto entre o cotidiano, o poético e o fantástico.

    • lsetubal

      Tentei me aventurar pela crônica e deu nisso. E vindo de uma cronista como tu, o elogio me alegra muito. Beijocas!:)

  6. Uau Lu, adorei!!!!!!!!!!! Lindo, lindo!!!
    Tua “pegada” literária tá cada vez mais certeira!!!
    Abração 🙂

    • lsetubal

      Q bom que curtiste, amiga. Como parceira de jornada, conhecedora da minha caminhada, fico feliz em saber que estou acertando cada vez mais. 🙂

  7. SEGMUND

    Narrativa de conto, fácil e bem agradável, trouce a esse paulistano, exilado nas aguas da Guanabara,
    lembranças dessa São Paulo, fria e comprimida parabéns Lú.

    • lsetubal

      Valeu pela visita, Sigão! E além de fira e comprimida, São Paulo pode ser bem gentil, né não? Beijones!

  8. Angel

    Adorei Setúbal!! Parabéns amiga!!! Bjão!!

  9. Leandra Gonçalves

    Lindo e sensível, amiga! Parabéns.

  10. Guilherme Sanchez

    Gostei muito! Parabéns dona Setúbal.

  11. Paula Guzzo

    Uma ótima contadora de historias. Adorei. Bjs Pá

  12. Alexandra Campos

    Olá, Setubal. Por todas manhãs, perpasso pela correria dos trens e metros de São Paulo………….Ufa, e me senti um transeunte do seu texto……que bárbaro……..pude perceber que não somente eu mas milhares de pessoas passam por esse percurso ” tempo x chegada ao curso” Enfim….adorei e vou te seguir…….
    Até

    • lsetubal

      Valeu, Alê! Q bom saber que consegui traduzir a sensação de quem utiliza o metrô na correria louca dos dias. Beijocas!

  13. eduardo reckziegel

    muito bonito, né lu?!!? depois q saiu da gas, tá sobrando tempo até para os tais projetos pessoais (ou ‘coletivos’, no caso desse blog), rsss!!!
    belo txt e percepção inspirada no cotidiano…visualizei a cena!!
    solta a mão no teclado aí!!!!!
    bj

    • lsetubal

      Edu, q maravilha te ter aqui. Ah,amigo, se soubesses o quanto anda o ritmo da agência aqui… Tá mil vezes pior que a Gas! hehehhehhe… A diferença é que agora eu tô levando a literatura mais a sério. Aí eu cavo tempo sei lá de onde pra escrever. Obrigada pelo retorno, pela sensibilidade. E amão tá solta, doidinha pra dançar nas teclas. 😉 Beijim!

  14. Gui Maranhão

    Você é inspiradora!

  15. Pingback: 1º Sarau Mundano – 26/04/2012: Coletivo Claraboia | Mundo Mundano

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: