O borracheiro e a flor

Cinco da tarde e um pneu furado. Cinco e dez e cadê o estepe? Cinco e meia e uma borracharia típica. O homem questiona aos botões que tipo de mulher anda sem estepe – sou boa em leitura de pensamento. Sem saco para explicação, digo logo que sou daquele tipo. Daquele mesmo. Que só bota gasolina. E quando não bota, liga para o namorado a qualquer hora, de qualquer esquina. Vem amor, vem socorrer. Dez pras seis e ele fala coisas horríveis. Sobre larguras e diâmetros. Macaquinhos fazem estripulias na minha cabeça. E ele fala. Meia vida, meia cinco. Taí um assunto que não me interessa. Seis horas e sei que é preciso me concentrar. Assunto do meu interesse. Mas os macacos. Tenho que prestar atenção no homem. Faço uma pergunta, duas. Dou sugestão até. Meia vida é um nome antiestético, moço. Ele me olha com cara de espanto. Sinto vergonha, não me interesso por assunto do meu próprio interesse. O homem se desculpa pela bagunça. Borracharia é assim mesmo. Diz para eu tomar cuidado, posso sujar a roupa. Limpa o banco com um pano preto. Fico sem jeito. Agora ele parece envergonhado. Então invento uma história de última hora, que meu tio tinha uma borracharia. Borracharia típica. No interior. Dou logo nome aos bois. Todo mundo tem um tio Zé. O homem parece aliviado e eu disfarço lendo o cartaz na parede. Toda explosão lá fora é uma alegria aqui dentro. Entra outro homem carregando uma menina pequena. Se cumprimentam, são amigos. A menina tem cachos crespos e uma flor na mão. Entrega a flor ao borracheiro. Ele agradece  e guarda em cima de uma mesinha cheia de tralha. Era uma flor feia, mais galho do que flor. Era uma flor triste no meio daquela sujeira. Lembro daquele poema do Drummond, a flor e a náusea. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde. O poeta, um visionário. Façam completo silêncio, paralisem os negócios. Minha cabeça na lua buscando os versos, enquanto o borracheiro encara a dura realidade dos meus pneus. Uma flor nasceu na rua! O homem puxa assunto, pergunta se tenho macaco. Sua cor não se percebe. Tenho macacos sim! Suas pétalas não se abrem. Vários aqui, ó. Seu nome não está nos livros. Pergunto quanto vai ficar, dois meia vida e a mão de obra. É feia. Cem reais. Mas é realmente uma flor. É caro? É barato? E agora, John?

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  1. O que importa é que é uma flor. E sendo uma flor nunca é feia. Viajei com o seu texto, Denise! Ficou ótima essa mistura com o poema.

  2. … também não sei trocar pneu!!!
    E você é bárbara!!!!
    Belo texto … bela cadências …

    E os macaquinhos?

  3. Tudo se paga na vida , de uma maneira ou de outra , tudo se paga . Quem não semeia flores no jardim , vai ter que pagar às que passam para lhe adoçar ( se é que consegue ) o carácter .
    Gostei de seu texto : reflexivo e profundo .
    Diga ao homem para mudar de carácter para não ter de mendigar aquilo que é mais natural nos seres humanos : a entrega VOLUNTÁRIA DE FLORES ..

  4. Lena

    Adorei, Denise, bela estreia!
    Bjo

  5. Denise que texto bárbaro! Me senti a própria pois não entendo nada de mecânica o que dirá trocar pneus? Texto engraçado, poético, imagético. Parabéns!

  6. kkk é o que dá acordar e já ir pro computador. Esse comentário acima é meu e não de minha irmã. Mas as palavras são todas minhas e verdadeiras. Bj

  7. Os macaquinhos continuam na minha cabeça… Muito divertido! Parabéns.

  8. Sheila Boesel

    Viva Denise! Gosto dessa tua capacidade de misturar a prosa (poesia) dos outros as tuas próprias prosas!!

  9. Amigos queridos, obrigada pelo prestígio!
    Os macaquinhos estão agradecendo também! ;-D

    Beijo, beijo

  10. “Macaquinhos” é eufemismo! Não dá pra competir contra esses Gorilas pela atenção da Denise.

  11. Marcus

    os textos são autobiograficos?

  12. E é para isso que estamos aqui, entre pneus e flores, pulando feito macacos, brincando feito crianças!
    Parabéns pela estréia!!

  13. Esse poema do Drummond é lindo e teu texto ficou uma delícia, Dê! Parabéns!

  14. Valeu gurias!
    Tô saudosa dos nossos encontros na Terracota!
    2 Beijos

  15. Aline Viana

    Ótemo, Denise!!!!!!!!!

    Tenho certeza de que quando eu atingir o status de motorizada vou ser bem perdida tal e qual essa sua personagem, rsrsrs

    Bjs

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