Um casamento chinês

Acordei no limbo. E de repente tinha uma aliança na minha mão esquerda e um sujeito chinês do meu lado, sorridente, dizendo que era o meu marido. Não basta ter que entender que se está morta, você ainda tem que lidar com o fato de que no inferno te dão um marido.

Tinha uma casa, aliança, um monte de tralhas, uns tapetes, umas louças, umas roupas que realmente eram minhas. Eu devo ter morrido de porre!! A Alê me paga!!!

Meu marido explicou que me esperava há muitos anos. Disse que podia chama-lo de Sam, porque seu nome em chinês era complicado e feio demais para  tentar aprender. Disse que sabia que sua família não o deixaria passar a eternidade sozinho e por isso tinham me providenciado como esposa.

Pirei ouvindo isso!!!! Se eles tivessem me matado apenas para esse maluco ter uma esposa no além? A polícia do meu país não ia deixar barato, estávamos na América, não em qualquer biboca comuna. Quer dizer, eu estava na América até onde eu me lembrava e se tivessem me sequestrado e matado pra ser mulher de um china? Alê, me explica!!!! O quê? A polícia está em greve!!! Pode?

Notou que eu estava ficando apavorada demais, mesmo para alguém que tinha acabado de morrer. Ele me trouxe um copo de água com açúcar. Ficou só olhando até fazer efeito.  E daí sentou naquele banquinho ao lado da cama de novo e me disse que era normal não aceitar a morte. Que ele mesmo levou muito tempo nesse processo. Mas que pra mim seria mais rápido, já que ele estaria ao meu lado e beliscou a minha bochecha.

Um maridinho terapeuta. Maravilha. Onde é que ele vai com esta mão boba??

O Sam continuou falando. Disse que morreu vítima de uma embolia pulmonar aos vinte e oito anos. A morte pegou a família de bolsos vazios. O certo era que o filho os sustentasse quando acabassem os estudos. Primeiro fizeram o enterro. Depois devem ter se ralado para conseguir o dinheiro do dote para convencer a minha família a conceder-lhe a minha mão morta.

Eu fui vendida pela minha mãe? Para me casar no inferno? Nossa. Nossa. Minha nossa!!!

Quando você morreu, Elaine, seus pais devem ter se voltado à nossa antiga religião, é natural até.  Se a gente considerar que ela descobriu que seu pai tinha como amante a secretária holandenzinha da sua idade.  Enfim, pela tradição, a alma de um homem ou uma mulher sozinhos não tem descanso.  É preciso um companheiro.  Por isso, é comum nossa gente pagar um dote à família da noiva. Sua mãe deve ter recebido o valor justo. Uns 20 ou 30 mil dólares americanos. Mais o translado do corpo pro povoado dos meus pais. Eu nunca me preocupei com isso quando vivo, mas aqui… Você não pensa em outra coisa.

Eu vou ter que cumprir com meus deveres de esposa no além com um china tarado? Minha mãe me paga. Deixa ela chegar aqui! Ela fez dinheiro até com a minha morte. É levar a sério demais o conceito de fazer a América.

Pra calar a minha boca de vez, ele pegou as fotos do nosso casamento. Tinha uma imagem minha linda, com um vestido que valorizava o meu colo, sorridente ao lado do Sam. Foto de busto, como aquelas que meus avós tinham em casa. Só dos ombros pra cima. Quando criança, achava que pareciam cabeças flutuantes, como de fantasmas.  O que só prova que as crianças são naturalmente sábias.

Eu estava morta, mas a ressaca já estava passando. Eu nunca vesti aquilo, nunca vi aquele cara antes.  Qualquer um com um computador podia ter feito aquelas imagens. E aquela história era muito louca. Só que o vestido também estava lá, bonito mesmo, tinha uma cauda enorme, que eu não podia adivinhar pela foto. Pelo menos não fui uma noiva cadáver com vestido de aluguel. Não fui, né?

Não, não foi, meu marido confirmou. Tudo que estava ali eram coisas com as quais eu tinha sido enterrada. Tudo que nossos parentes achavam necessário para que a nossa vida no além fosse feliz estava ali. Por isso o vestido, as bebidas, a louça, as roupas e até as lingeries. Deus, que porra é essa? Made in China!!!

Minha mãe passou a vida fazendo permanente no cabelo e arredondamento dos olhos.  Achando que conseguia se camuflar com o restante do povo. Talvez vendo que não deu muito certo, casou com um cara de família italiana, Famiglia Corleone. Nesse sentido fui um sucesso: cabelo quase ondulado, adoro macarrão à bolonhesa, olhos verdes e menos puxados que os dela. Justo na minha morte ela não podia continuar se apegando a Jesus?

Mas eu não iria mesmo a nenhum lugar. Pelo menos nunca conheci quem tivesse escapado da morte. E nada iria nos separar – divórcio no outro mundo, creio que não. O Sam parecia um cara legal. Só que se não beijar bem. Só que se não beijar bem, esse china nasce de novo antes de consumar esse casamento!!!

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos.

  1. Querida Aline!!!

    Arrasou!!
    Divertido!!!
    Dinâmico!!!
    Muito bom!!!

  2. Mêdo desse china!!
    Parabéns pela estréia, Aline!

    • Aline Viana

      hahahaha Obrigada, Bia! O lado bom é que parece que ele não teve ainda a ideia de assombrar ninguém 😛

  3. Hun… tem certeza de que não quer continuar essa história? Ela parece dar pano pra manga, rs!

  4. Opa! Divertidíssimo, parabéns, Aline.
    Beijos

  5. Que situação inusitada. Parabéns pela ideia e pela estreia.
    Abraços

  6. OLÀ ALINE BOA TARDE!!!!PARABENS MUITO LEGAL,AGORA ESSE CHINESINHO É DO BALACOBACO.

    • Aline Viana

      Nossa, obrigada pela leitura Vila!!! Fiquei super feliz mesmo de vc ter achado um tempinho para me ler.
      Beijo grande 🙂

  7. Izilda Bichara

    Quanta imaginação e criatividade, Aline! Eu me diverti com sua história. Parabéns.
    Beijos,
    Izilda

  8. Luci Chrispim Pinho Micaela

    Parabéns, linda!!! Adorei!
    bjos
    Luci

  9. Luís Fernando Pereira

    “biboca comuna” é muito bom… 🙂

    Divertidíssimo!

    Beijo

  10. celso oliveira

    Aline, parabéns pelos textos. Tenho acompanhado semanalmente. Gostaria de me inscrever para enviar para fazer parte do grupo. Como devo proceder? Cabe mais um?
    Um grande beijo e parabéns!

    Celso Oliveira
    Sumaré

    • Aline Viana

      Oi, Celso,

      Como já re respondi mais completinho por e-mail, aproveito para agradecer novamente por você estar me acompanhando nas minhas primeiras letras 😀

      Um abraço
      Aline

  11. Oi Aline! Finalmente consegui ler seu texto e adorei!!! Sério mesmo! Me amarro em situações bizarras como essa que a noiva passou. Enfim, acho que ela saiu no lucro. O China parece ser um bom fantasma. Hehe!
    Parabéns pela estreia.

    • Aline Viana

      Oi, Roseli! Pôxa, que bom que vc conseguiu reservar um tempinho para me ler e fico mais feliz ainda que tenha gostado 🙂 Bem, vai ver o casamento acaba que vai ser um bom negócio para os dois, rsrsrs

  12. Sheila Boesel

    Argumento inusitado, história original!! Gostei Aline, me uno aos parabéns da galera!!!

  13. isso que se pode chamar de um negócio da China!! ;D

  14. Divertidíssimo, Aline! Parabéns!

  15. Aline Macário

    Adorei, querida! Bjs!!!!!!!!!!!!!!!

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