Sangria nos meus olhos mortos

O homem é um deus em ruínas
Ralph Waldo Emerson
Começo o árduo trabalho de ensacar os figos. Olho a árvore e vejo a mão desproporcional de Deus brotando e descansando sobre a terra arada.
É outono e as folhas se desmancham sobre o chão caiado. A mulher de vértebras em andrajos murmura entre as frestas pretas de seus dentes fatigados: Perante o amor todo ser se desnuda.
Marimbondos rondam o quintal e suas asas negras assustam os olhos planetários da minha infância esquecida. Os pés descalços esmagam a terra num misto incoerente de inocência e maldade. Minúsculas formigas deslizam sobre o tronco cinza, se encontram, se beijam e se abandonam. A simplicidade me apavora.
– Você sabia que as larvas entram no figo, comem-no por dentro e morrem sem poder escapar da própria armadilha? Bonito isso, né?
– Existem tantos homens que são como essas larvas… Invadem nossas entranhas, alimentam-se de nossas vísceras e morrem dentro de nós, devorados pela mesma fúria que os impeliu a entrar.
Aperto a polpa tenra.
No início o gosto não me agradava, mas acabei por apreciar o ritual de abrir a fruta e degustar seus desenhos. Me passava pela cabeça todas as teorias matemáticas tentando provar a inexistência do obtuso. O retorno provável-trágico da vida.
Mordo a flor.
Um velho alto e magro, cuja pele insistia em acariciar o mistério, rezava todas as tardes pelos fetos não vingados. Eu dizia amém, esquecida das mortes fecundas do meu útero. Um sol vermelho sai e faz um escarcéu sob minha vagina de puta cansada. Minha carne despenca dia após dia dos ossos e almeja se esconder na solidão omissa de ancestrais porões brancos. Nostalgia da época em que fui criatura insignificante e era possível estrangular o tempo. Despejar toda areia sobre o ar. Enquanto homens e janelas verdes contemplavam passivos todo suicídio.
Vivo só. Durante as chuvas anoiteço as vistas e sonho com o espetáculo raro das touradas. O corpo da mulher nasceu deformado para o afeto e para a fratura exposta. É apenas uma caixa vazia de paixões frustradas. A autopiedade fez ninho nos meus olhos mortos. Ocos. O amor se extingue entre as podas drásticas e o descaso das madrugadas. Meu coração é um punho fechado. Abril? Não é tempo de figos.
Anúncios

Sobre marciabarbieri

Literatura e artes

  1. Nas ruinas .. .. deus é homem …

  2. O coração foi acelerando acelerando à medida que o texto foi chegando ao fim. Parabéns pela emoção visceral dele, Marcia.

  3. Marcia sempre me encanto com as imagens de seus textos. Amo figo e agora com certeza terei outros olhos para essa fruta. Bela estreia amiga!

  4. Um comichão de sabores! Um infinito imagético invadindo meus olhos!
    Parabéns pela bela estréia!

  5. Imagens e linguagem exuberantes. Parabéns pelo conto, Márcia!

  6. Marcus

    legal, legal, legal!!!!!

  7. “Durante as chuvas anoiteço as vistas e sonho com o espetáculo raro das touradas”…
    Vida longa, Barbieri!
    D. Ranieri

  8. Sheila Boesel

    Teu estilo leva a vista longe!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: