Primeiro Round

Ele terminava o relatório do caixa para entregar ao chefe quando a sua esposa ligou.

– Amor, vamos aproveitar que hoje as crianças vão dormir na sua mãe para…
– Querida, hoje eu não posso ir ao supermercado. Tenho futebol com o pessoal do escritório.
– Não, amor.
– Depois rola uma confraternização. O patrão participa. Você sabe. Preciso participar.
– A fantasia…
– Quem não é visto não é lembrado. Fantasia?
– É que hoje eu estou tão inspirada.
– Ah é? Você iria usar a… Diz aí.
– A fantasia de ring girl?
– Hum-hum.
– Eu queria estrear o biquíni. O top. Desfilar pra você. Pena que hoje você não pode.
– Posso, sim. Uma faltinha não tem problema.

Primeiro a bater o ponto. Ele furou a fila do metrô. Precisava fazer umas compras. Quase   derrubou a lenta senhora na escada rolante. Tentou entrar no vagão de costas. Empurrando a massa. Murchou a barriga até que, enfim, as portas se fecharam. Perto de casa comprou flores. Vinho. Chantili. Taco de golfe. Após beijar a mulher – ainda sem a fantasia, correu para o banho.
Antes do primeiro round, uma leve salada para aliviar a fome.

– Nunca gostei desses tomates em miniatura.
– Nunca, amor?
– Nunca. O sabor deles é ruim demais.
– Desde que casamos a maioria das vezes eu uso tomate cereja na salada.
– E eu só pego a alface, a cebola, palmito.
– Por que não me disse isso antes?
– Você adora essas miniaturas de tomates. Se eu dissesse que não gostava você não iria mais comprar.
– Que lindo! Isto que é prova de amor.
– O amor está nos pequenos gestos.
– Após nove anos. Não me disse nada. Se sacrificou só porque eu adoro tomate cereja.
– Mereço um prêmio. Venha cá minha ring girl deliciosa. Vou finalizar você.
– Pe-raí!

Putz, ferrou! Ele sabia que depois desse “pe-raí!” a festa que ainda não havia começado não iria mais rolar. Era impossível, tanto quanto Israel ceder à Palestina ou o Corinthians ganhar a Libertadores, mas não custava tentar salvar o card principal.

– Como você está linda! Superou minhas expectativas.
– Por que resolveu me contar agora?
– Sei lá, amor.
– Você não me ama mais. É isso?
– Claro que amo.
– Se ao não dizer era prova de amor, agora que disse, significa que não me ama mais.
– Não, benzinho, pode continuar comprando tomate…
– São os três quilos e duzentos e vinte gramas. Eu sei. Não sou mais a mesma.
– Não é isso.
– Deve estar apaixonado por outra. Eu sei. Enjoou de mim.
– Querida…
– Sabe de uma coisa? Já sei de tudo. Vou dormir.
– Calma, amor. Venha cá. Quero ver direito. Uau, você tá maravilhosa! Cadê a placa do primeiro round?
– Me solte. Minha enxaqueca voltou. E trate de dormir no quarto das crianças.
– Amor, espera.
– …
– Querida, por favor, espera.

Soco na mesa. Palavrões. Ele enfiou a mão na travessa. Pegou um tomate. Cereja! Ia lançar o infeliz na parede quando teve uma colorida ideia. Cortou ao meio o pequeno tomate e passou maionese. Depois mostarda. Catchup. Molho barbecue. Pimenta. Manteiga. Não, manteiga, não. Sem mais o que passar. Experimentou. A combinação acompanhada do vinho ficou perfeita.

– Hummm, delícia.

Do quarto, ela gritou: – Nem adianta cantar essa música. Já estou de pijama.

Ele cortou todos os tomates. Cuidadosamente lambuzou cada um deles. Pegou a travessa. A taça de vinho. O taco de golfe. E se acomodou no sofá para acompanhar a reprise do UFC.

– Vaaai. Vaaaai. Finaliza! Aêêêê. Hummm, nossa, que delícia! Isso é bom mesmo.

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Sobre Gláuber Soares

Gláuber Soares mora em São Paulo. Formou-se em Jornalismo, mas o seu maior erro foi comprar um All Star de cano alto e cor roxa pensando levar azul-marinho. Skatista calhorda, nos finais de semana é possível encontrá-lo no litoral sul, ao pé da serra do Mar, numa casinha verde, próxima do Rio Negro, à procura dos tons que não enxerga. Participou das coletâneas de contos: Abigail (2011), Dos Medos o Menor (2012) e A Arte de Enganar o Google (2013) – todas pela Terracota Editora. Em 2014, também pela Terracota, lança sua coletânea de contos Remédio Forte. Também bloga em glaubti.wordpress.com E-mail: glaubersoares@terra.com.br

  1. Gostei!!!
    Bela finalização!!!

  2. Gláuber que ótima história! Ahhh!!! As relações! Sempre dão uma excelente história. Parabéns amigo!

  3. Hahahahahaha
    Uma boa surpresa, hein?
    Parabéns pela estréia, Glauber!

  4. O conto tem ótimas reviravoltas. Muito bacana. Esperamos o próximo!

  5. Eu adoro tomates cerejas e contos com humor! parabéns!!!

  6. Fiquei curiosa… pq teria ele comprado um taco de golfe junto com o chantili? 😀

    beijão

    D. Ranieri

  7. Marcus Zittei

    legal, gostoso de ler. Mas tem uma falha futebolística!

  8. Sheila Boesel

    Concordo com a Denise: o taco de golfe realmente é um mistério… Dei risada com essa cena matrimonial!! Boa estréia Gláuber!!

  9. Lena

    Muito bom, me diverti muito!

  10. cristian

    Glauber , parabens , un prazer trabalhar con vc no projeto CQ botecam
    Cris

  11. Pingback: 1º Sarau Mundano – 26/04/2012: Coletivo Claraboia | Mundo Mundano

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