Vinte e cinco

Vinte e Cinco, by Escalla - http://www.flickr.com/photos/escalla/

Foto: Escalla

A mania de desconversar veio impressa no seu DNA, não é Helena? Eu escutava Bidê ou Balde, sabe aquela parte “vai ter medo de que um dia ela vá mudar”, era nossa trilha quando a gente visitava o Ibirapuera e você me dava um dos fones do iPod, “mesmo que mude”, meu ouvido sabia de cor cada trecho, você de bicicleta sempre pela esquerda, eu corria à direita, às vezes o fone brincava de pula-pula e a gente parava, o parque lotado, você colava o fone no meu ouvido novamente, “nosso amor pode até acabar, mas sempre vai existir”, tua frase era o SuperBonder que fazia o fone não sair mais do lugar.

Eu ficava com medo que você mudasse, que nosso amor morresse, cada trecho da música parecia dessas sortes vagabundas que os biscoitos chineses trazem, e quando eu pensava nisso varria a profecia para debaixo do tapete, quando a gente pede o universo ouve, não dizem isso, e pensar desse jeito podia ser confundido com pedido, o universo não discerne, não sabe se é bom ou ruim o que pedimos, eu diria que ele é burro mesmo, então não valia o risco de perder você por causa de um pensamento estúpido fugaz qualquer.

Um dia você não ligou no almoço como sempre fazia, “volume de trabalho muito grande, amor”, imitou a ausência duas vezes na semana seguinte, “essas mudanças na produtora estão acabando com minha vida, Ti” e na oitava vez em que repetiu a façanha nenhuma desculpa foi incluída na frase “pois é, Tiago, não deu”, e eu descobri, Helena, que o amor é feito de padrões, a pergunta divertida depois da transa, o toque na buzina quando se vai embora, o cheiro de saudade na boca, esses padrões que a rotina de amar produz e registra sem pensar.

Não demorou muito, você sabe, a verdade pode não ser a primeira, mas nunca é a última a cruzar a linha de chegada, e quando os indícios do amor que não existe mais seriam enxergados até mesmo por um cego, eu não senti raiva, não, só queria resolver as  perguntas sem múltipla escolha que surgiam, como eu preencheria os almoços de sábado que sempre eram seus, qual filme seria a vítima das quartas de cinema com meia entrada, quem eu chamaria para comemorar o novo frela ou chorar a dor nas costas que consumia o corpo e o espírito, essas questões quase metafísicas que a gente elabora quando um amor termina.

Agora, Helena, sentado naquele banco do Ibirapuera que marcava o fim do nosso exercício, onde ficávamos horas usando linhas e pontos pra desenhar nossa vida no ar, lembra, faz tempo, vinte e cinco anos, e eu leio pela trigésima vez o SMS cancelando nosso encontro, encontro marcado por você, desconversado por você, eu finalmente entendo, eu sei, é assim mesmo, às vezes a capacidade de compreender pega um avião encrencado e chega atrasada em nossa vida, agora entendo que não é o amor que acaba, Helena, são elas que se recusam, se negam a brincar de lagarta virando borboleta, são as pessoas que não mudam.

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Sobre Setúbal

Setúbal é Luciana Iser Setúbal, nascida em 6 de março de 1974, em Porto Alegre (RS). Professora e redatora/revisora publicitária por formação e experiência, é leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. E que agora, escreve aqui: lsetubal.wordpress.com.

  1. Lena

    Lindo, excelente “inauguração”. Bjo, menina!

  2. Lu que lindo texto! Quem já não vivenciou o amor se definhando silenciosamente até acabar? Isso é universal mas a sua forma de expressar é única! Parabéns pelo texto inicial do Claraboia. E que venham muito outros! Bjs

  3. Grande Lu!
    Estreou com classe! Assim o Claraboia só tem futuro bom!!

  4. Aline Viana

    Adorei o conto, Lu! O tema é triste, mas você lida com ele de forma tão tranquila e poética, que dá gosto.
    Bjs

  5. Camila

    Parabéns pela estreia, Lú! E pode se orgulhar sim – você realmente escreve bem! beijos

  6. Moema

    Lindo Lú! Parabéns! Saudades de ler os seus textos! Beijo grande de Mô :***

  7. Delay

    Muito bom, Setubal. Curti pra cacildis.

  8. Heloisa Pierozan

    Lindo, Lú!!!! Muito real. Relacionamentos…, gostaríamos que não terminassem, mas o que fazer. O bom é que a gente se adapta. Beijão, querida!!! Sucesso sempre…

  9. Maria Carmen Caprara Costamilan

    Muito show Lu!!!!!!

  10. Deh Rodrix

    Parabéns, Lu! Muito bom!

    * E essa música é foda!

    MAIS!

    • lsetubal

      Valeu, Deh! Essa música é fodástica mesmo.E depois de passar as duas últimas semanas escutando – trilha antiga da minha vida – não tinha como deixar de ser ponto de partida para o conto. Beijim!

  11. depois muda a música, muda o parque… e lá vamos nós de novo, com a cara e a coragem!
    vida longa ao Coletivo Claraboia (pedido ao Universo)!!
    estreando em grande estilo, Setúbal!

    beijos!
    D.

    • lsetubal

      Depois muda o banco, muda as frases, só não mudam as pessoas, né Dê? Vida longa para o nosso projeto. Q venha o teu texto, em grande estilo tb. Beijocas!

  12. Daniel Fagundes Garcia

    Lu, arrasou. Poetica e muita classe. Adorei. Bj

  13. Rogério Trajano

    Virei fã! Voltarei mais vezes.

  14. Marcus Zittei

    Setubal!!!!!!! Parabéns pelo texto!! Estreia magnifica!!!!

  15. Sheila Boesel

    Gostei Lu!!! Um ótimo começo pro nosso blog!!!

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